Introdução
Embora somente me aproximasse de Anísio Teixeira em 1924, nossos pais haviam entretido relações de grande amizade e confiança. Não fora a oposição do Presidente Campos Sales, ao deixar o governo da Bahia, em 1900, meu pai teria feito seu sucessor o pai de Anísio, Deocleciano Teixeira, médico que servira na campanha do Paraguai e acabara fixando-se na cidade de Caetité, no altiplano da Chapada Diamantina. Aí Deocleciano se tornara o patriarca de imensa região do sertão da Bahia. Nenhuma palavra pesava mais do que a sua.
Por motivo de viuvez, Deocleciano casou-se com três irmãs da prestigiosa familia Spínola, orgulhosa de ter tido como representantes, no Parlamento Nacional, César Zama e Aristides Spínola. No arquivo de Anísio há carta de Afrânio Peixoto, de 1924, na qual este Ihe perguntava: "Agora o caso pessoal: 'Spinola Teixeira' - será V. filho de Deocleciano, meu padrinho? De D. Anna, que eu, menino, vi casar-se em Lençois e partir para Caetité? Ou irmão de Joaquim Otílio Teixeira? Meu colega de Colégio? Quisera sabê-lo. Por que sobre amigos, baianos, seríamos um pouco parentes". Sim, eles eram parentes, pois Anísio, nascido em 1900, era um dos filhos de D. Anna, a última das irmãs Spinola casada com Deocleciano Teixeira. Em Caetité ela seria, durante décadas, a alma boa do amplo sobrado, o solar que dominava a paisagem da cidade.
Na Bahia, 1924 marca a queda de Seabra e a ascensão do Governador Francisco Marques de Góes Calmon, advogado, banqueiro, professor, e, sobretudo, espírito voluntarioso, inclinado a substituir a rotina pelo progresso. Precedeu a ascensão de Calmon agitada campanha política, principalmente na imprensa, onde sobressaía o tradicional Diário da Bahia, abrigo de uma plêiade de jovens combatentes: Clemente Mariani, Nestor Duarte, Jerônimo Sodré Vianna, o alegre Jesovi da Musa Risonha, Aloysio de Carvalho Filho, Albério Fraga, Alfredo Curvelo, eu, mais moço de todos, e Hermes Lima, o memorialista que evocou esses dias de juventude: "Essa passagem pelo Diário vivemo-la como temporada num palco. Ai envolveu-nos o rumor de uma presença notada, que os fados prolongariam. O melhor de tudo, o inesquecível, estava no laço da camaradagem afetuosa, que nos prendia, e na ilusão que a cidade era mais alegre por nossa causa." Na ocasião, Hermes e eu morávamos em modesta pensão, na Travessa do Rosário, 13, e a vida em comum nos fez amigos para sempre. Calmon acreditava nos jovens e na inteligência, certo de serem indispensáveis para a obra administrativa que pretendia realizar na Bahia. Hermes Lima foi dos primeiros convocados para servir no Gabinete do Governador, donde, eleito deputado, passaria para a Assembléia Legislativa. , prepa-
rando-me para ingressar na Faculdade de Direito, bisonho jornalista comecei a freqüentar a casa do Dr. Madureira de Pinho, cujo filho mais velho, Péricles, era meu colega de curso, e em quem não demorei em reconhecer: difícil saber-se o que era maior, se a inteligência ou o caráter. Nunca mais nos separamos. Aí reaparece Anísio Teixeira. Sim, reaparece. Depois de passagem memorável, no Colégio Antônio Vieira, Anísio fora para o Rio, onde se diplomara em Direito. Agora, retornava à Bahia, e a fama com que partira permanecia a mesma. Na verdade não havia inteligência mais luminosa, inquieta, resplandescente. Nele, tudo exprimia o talento de um ser privilegiado. Dizia-se pretender uma promotoria pública na região de Caetité, para início de carreira política, que se prenunciava brilhante.
Até se diplomar, no Rio, Anísio viveu sob a forte influência dos jesuítas, participando do Círculo Católico de Estudos. Congregado mariano e zeloso membro da Liga da Comunhão Freqüente. Colaborador do Archivo Mariano Acadêmico, publicado na Bahia, de 1916 a 1927, aí ele escreveu sobre os seus educadores: "Desde cedo, para felicidade minha, fui atirado para a atmosfera sadia dos seu colégios. Criança, e criança brasileira, não levava preconceitos, nem os recebia em casa." E, com emoção, continuava: "A Companhia de Jesus, parece, surgiu no mundo com o condão do sacrifício. A perseguição e um ódio proteiforme acompanharam-na sem cessar desde o nascimento." Por que não seria ele um bravo seguidor de Loyola? E, ao longo das páginas do Archivo Mariano Acadêmico, o encontramos falando de Barrés, Renan, Maurras, Jacques Rivière, Peguy, Claudel e tantos outros que alimentavam a fé católica. Expressiva é a evocação desta carta de Claudel a Rivière: "Ah! meu caro amigo, o dia em que receberes a Deus terás o hóspede que não te deixará nunca em repouso. Será o grande fermento que quebrará todos os vasos, será a luta, a luta contra as paixões..." Um fermento de luta que jamais abandonaria Anísio, mesmo quando extinta a chama da fé católica.
Não era segredo que havendo convivido com aquela inteligência rara, pretendiam os jesuítas, tendo à frente o Padre Luiz Gonzaga Cabral, grande humanista, famoso orador sacro, conquistar para a Companhia de Jesus o estudante excepcional. O próprio Anísio, por longo tempo, entre altos e baixos, oscilaria entre a fé e a dúvida, jamais admitindo, porém, transigência que lhe pudesse parecer conveniência ou precipitação. Prova disso é a correspondência com o Padre Cabral, e na qual, por mais que se esmiúce, é impossível divisar a menor fissura no caráter. Este era íntegro e perfeito.
Vindo do Colégio de Campolide, em Portugal, para a Bahia, após a expulsão dos jesuítas, o Padre Cabral chegara precedido da justa fama de humanista. Seria marcante a sua presença na vida intelectual da Bahia, principalmente entre a juventude, que reuniu e buscou catequisar de várias maneiras. Thales Azevedo, seu aluno, retratou-o em Um mo
mento da vida intelectual da Bahia (1917-1938). A presença e influência do Pe. Luiz Gonzaga Cabral S.J., síntese e depoimento sobre a atividade do missionário da Sociedade de Jesus. Nesse redil foi envolvido o jovem Anísio Teixeira, que antes freqüentara o Colégio dos Jesuítas em Caetité, de onde viera com os irmãos Jaime e Nelson. Após longa viagem a cavalo, alcançaria a estrada de ferro, os trilhos prolongados, os fios telegráficos lançados para o infinito. A locomotiva, resfolegantecontou Lourenço Filho, repetindo o depoimento de um dos irmãos de Anísio -, impressionou-lhe vivamente a inteligência. Era a revelação da técnica e do seu poder.
A hipótese de ingressar na Companhia significou para Anísio longa batalha íntima, da qual, cada um a seu modo, participaram, além dele, o Padre Cabral e o velho Deocleciano, republicano convicto, a "quem não faltava uma nota de rebeldia voltariana", dizia o filho.
Este crescera dominado pelo espirito naturalista e científico, e assim começara, em 1916, os estudos no Colégio São Luiz, de padres portugueses, franceses, alemães, suíços e irlandeses, todos reacionários e ultramontanos. De Caetité, com os irmãos Nelson e Jaime, Anísio se transferira para o Colégio Antônio Vieira, em Salvador, onde chegou precedido da fama de grande estudante. Hermes Lima, seu colega de internato, e que também viera do sertão baiano, não mais esqueceria o companheiro. "Todos nós, seus colegas e contemporâneos, guardamos dele a impressão toda especial, inesquecível. Pequeno de estatura, magro, irrequieto, olhos muito vivos e portador de comunicante jovialidade, estava ali o jovem que viria destacar-se em sua geração como o mais extraordinário valor humano que ela teria a revelar."
Para quem jamais deixara o sertão, e seus hábitos de austera e altiva pobreza, a vinda para a Capital representava a chegada a um mundo desconhecido. E aí o encontraria o Padre Cabral, de fundamental importância na formação espiritual daquele aluno excepcional. O próprio Anísio, mais tarde, em entrevista a Odorico Tavares, em 1952, evocou esses anos de adolescência: "No Instituto São Luiz, entre jesuitas portugueses, franceses, alemães, suíços e irlandeses e, depois no Colégio Antônio Vieira da Bahia, vi-me arrancado das primeiras influências aquele deísmo austero, revolucionário e republicano - para o catolicismo ultramontano e reacionário que a Companhia de Jesus, ainda sob a candência do golpe sofrido, trazia para o Brasil."
"Durante os doze ou quatorze anos de discípulo dos jesuítas, entre 1911 e 1923, tive a experiência dos ardentes conflitos religiosos, participando, com paixão, da formação intelectual e religiosa que me proporcionavam os padres. Rendi-me ao catolicismo e fiz mesmo projeto de entrar para a Companhia de Jesus. Cristão novo, vivi ardentemente meu sonho Loyoliano, durante todo o curso acadêmico, em que fui destacado congregado mariano na Bahia e depois no Rio."
Desde o começo, no "Antônio Vieira", fora Anísio requestado pelos professores encantados pela cintilante inteligência, cada qual desejoso de integrá-lo na sua especialidade. Contou Faria Góes Sobrinho, também do Colégio, que o Padre Meyer, químico consumado, descobrira em Anísio a vocação do químico. O Padre Zimmermann o queria matemático e físico; o Padre Torrend, naturalista, nele lobrigara atento e sagaz observador da natureza; e o Padre Ferreira o desejava entregue à criação literária, certamente à flor da pele. O Padre Cabral desde a primeira hora quisera-o jesuíta.
O velho Deocleciano, distante de qualquer convicção religiosa, sonhava com vitoriosa carreira política para o filho. Na realidade, havia obstáculo que o Padre Cabral jamais demoveria, por maiores que fossem os esforços realizados, e entre os quais se inclui penosa viagem a Caetité, e que somente um grande objetivo podia justificar. A beleza da caça justificava a caminhada do caçador. Inteligente, perspicaz, Deocleciano percebera o que significaria a permanência de Anísio na Bahia. Resolvera por isso transferi-lo para o Rio, juntamente com o irmão Jaime. O terceiro, Nelson, permaneceria em Salvador. Desapontado, o Padre Cabral escreveu a Anísio: "Se eu pudesse, iria em pessoa pedir a seu bom pai, que me deixe os dois filhos, a quem a Bahia tanto bem tem feito; embora ele entendesse que, para o terceiro, conviria, no Rio, a vigilância austera do tio Rogociano". E, envolvente, dizia adiante: "Já mostrou a seu pai as páginas da sua linda dissertação sobre a Companhia? Faça-o, que o alegrará e a mim". De nada valeria o apelo. Aliás não havia muito que nesse trabalho de catequese lobrigara o Padre Cabral pequena luz, motivo de "prazer intenso", e ele escreveu a Anísio, que Ihe comunicara o momento de inclinação religiosa: "Abafarei o meu desânimo e me atirarei ao estudo e... ao apostolado." Ao apostolado! Este o sonho do Padre Cabral.
A transferência para o Rio de Janeiro suscitou regular correspondência do Padre Cabral com Anísio, e dela ressalta não somente o empenho daquele em conquistar para a Companhia o excepcional discípulo, mas também as reiteradas vacilações deste, que ora mais, ora menos, Ihe sombreavam as claridades da fé, que a inquieta inteligência jamais deixara criar fundas raízes. Dir-se-ia que a dúvida era nele permanente. Já no fim da vida costumava dizer que ao longo do tempo vivido estivera mais a aumentar as próprias dúvidas do que a guardar as suas possíveis certezas.
Por vezes ele estivera a um passo de uma decisão, mas logo se seguia período de dúvida. Nessas horas o Padre Cabral buscava soprar as chamas da fé. De abril de 1921, próximo da formatura de Anísio, são estes os seus conselhos: "Coragem, pois, meu Anísio! Considere-se desde já como um religioso forçado a viver entre mundanos; santifique-se cada vez mais, faça em volta de si todo o bem que possa: avive com atos cada vez mais freqüentes e intensos o desejo de deixar o mundo, e
confie que as dificuldades de seus pais, o Pai do Céu pode resolvê-las de um momento para outro: talvez o que oralmente não conseguiu em Caetité, poderá consegui-lo por escrito desde o Rio." Sinal de continuar a presença do velho Deocleciano inabalável. Aliás, como se não lhe bastasse conquistar o filho, o jesuíta imaginava poder algum dia converter o patriarca de Caetité, intransigente nas suas idéias liberais e agnósticas. Cabral a Anísio, em maio de 1922: "Quanto terei eu a alegria de conseguir dar uma fugida a Caetité, abraçá-lo (Deocleciano), conversar longamente com ele e ter a felicidade indizível de lhe dar a Sagrada Comunhão?" Certamente, uma utopia. Mais se tornavam visíveis os passos de Anísio em direção ao Noviciado na Companhia de Jesus, mais se revelava firme a oposição do velho Deocleciano, que jamais admitiria perder para os jesuítas o filho cujos triunfos políticos prelibava. Medido, a reação era-lhe proporcional aos perigos que, de longe, antevia. De dezembro de 1922 é esta carta do Padre Cabral ao discípulo dileto: "Inútil será dizer-lhe a consolação que experimentei ao ler aquelas páginas tão sobrenaturais e tão resolvidamente apostadas ao seguimento fiel de Jesus, que tão mimosamente se dignou chamá-lo." Anísio parecia chegado à porta do Noviciado. O velho Deocleciano continuava, porém, vigilante, e a carta continuava: "Em compensação dessa alegria veio-me de Caetité uma notícia triste, comunica o Padre Rosário que seu Exmo. pai, incomodado com a santa resolução do filho em que tinha posto suas esperanças, e atribuindo a influências minhas o seu intento, se mostra muito indisposto comigo."
Na realidade a vontade paterna retardava a decisão de Anísio. Este continuava varrido por dúvidas tão profundas quanto as possíveis numa inteligência voltada para todas as indagações. E, talvez por imaginar que o tempo não lhe seria favorável, o Padre Cabral almejava a conclusão do assunto, e propusera que, passado o frio do inverno europeu, Anísio rumasse para o Noviciado, na Companhia de Jesus. "Consiga, dizia-lhe, a sua libertação do mundo, fixando, sem mais tervirgersações, e comunicando a sua resolução inabalável." É de dezembro de l923 esta impaciência.
Na ocasião Anísio ainda permanecia inclinado a professar na Ordem de Loyola. De Pedro Calmon, seu colega de faculdade, é este depoimento: "Alguns de nós eram endiabrados: ele era puro. Sonhávamos com a vida: ele sonhava com a eternidade. Queríamos ser urgentemente bacharéis. E ele jesuíta. Consultávamos obstinadamente o Código. Ele abismava-se na Suma Teológica, de São Tomaz de Aquino."
Em vez de partir, porém, para o Noviciado, Anísio rumara para Caetité, na companhia do Padre Cabral, vindo do Rio especialmente para, juntos, empreenderem a penosa viagem. Em 6 de janeiro de 1923, chegaram eles a Caetité, ambos levando a esperança de converter o velho Deocleciano. Da árdua travessia temos a narrativa de Anísio, em carta ao irmão Nelson.
"A viagem foi agradável e rápida como não se podia esperar. O Padre Cabral venceu com galhardia as trinta léguas em dois dias e meio de viagem a cavalo da Lapa aqui. A viagem de trem e vapor correu regular, cortada de paradas em Juiz de Fora, Belo Horizonte, Pirapora, Januária, Carinhanha, Lapa..." A fé os fazia repetir as jornadas dos bandeirantes. E a carta prosseguia: "Em todos esses lugares o Padre Cabral disse missa, exceto em Carinhanha, onde não havia hóstias nem vinho, e em quase todos pregou. Não parou aí a infatigabilidade do Padre Cabral. Falou ainda em Riacho de Santana e aqui em Caetité, logo no dia seguinte ao da chegada cantou a missa em ação de graças pela minha formatura e ainda pregou por três quartos de hora um sermão que encantou toda a assistência, como V. calcula ele sabe fazer."
A Anísio a velha cidade pareceu parada no tempo. Nada mudara. "Caetité está absolutamente o mesmo, escreveu. Algumas crianças cresceram mais e algumas árvores da rua apontaram uns novos ramos. Tudo o que tem, porém, mais de dez anos está indefectivelmente igual ao que era o ano passado." Agradava-lhe, porém, o clima, a família, a casa, a mesa. Tudo era quietude. E ele comunicou ao irmão: "Mas, repousa, pode estar certo, todo este Caetité. Repara as nossas forças este silêncio e esta imutabilidade." Nada mudara, e nada mudaria, inclusive o velho Deocleciano, surdo aos apelos do Padre Cabral e às esperanças do filho, desejoso de ingressar na Companhia.
Durou pouco mais de mês a permanência do Padre Cabral em Caetité. Fora um espetáculo de inteligência a deslumbrar toda uma população. Humildes e poderosos encantaram-se com a palavra do jesuíta. Contudo, pouco mudara no coração dos homens, di-lo esta carta de Anísio: "Partiu hoje de entre nós o Padre Cabral. A sua estadia em Caetité descansou-o muito, e era ótimo o seu aspecto de saúde. Partiu, porém, sem deixar, pelo menos por enquanto, os costumados frutos espirituais de sua passagem em todos os lugares. Fez uma série admirável de conferências, como só ele as sabe fazer. Caetité ouviu-o com um agrado extraordinário, com entusiasmo mesmo: mas estes auditórios sertanejos são verdadeiros enigmas. Eu suspeito que eles têm da inteligência um desdém mais ou menos profundo. Iam às conferências como iriam a um circo. As conferências do Padre Cabral, cheias de luz e de lógica, eram um jogo encantador da inteligência, que os enchia de prazer intelectual... e nada mais."
Para Anísio devia ser profunda decepção. E ele continuava a externar as observações sobre aquele mundo que tanto Ihe falava ao coração: "Creio que um deles, qualquer, destes graúdos de meia-ciência de cá do interior, se veriam espantadíssimos se vissem convertidos. O quê? da noite para o dia, ouvindo uma conferência, um homem muda de idéias e com elas de proceder? Eles têm uma noção muito mais complicada da convicção... Seja o que for, o que é certo, é não ter ha
vido repercussão prática que tanto esperávamos das ótimas conferências. Em todo caso, a semente está lançada e um dia poderá germinar."
Mera ilusão: nada brotaria da semeadura. Anísio sobre o velho Deocleciano: "Papai ouviu todas as conferências com grande gosto. Mas, também com ele os frutos ainda não apareceram. Pedimos todos e muito por isto. Não diminuirei a confiança que Deus o tocará muito breve. Ele não poderá resistir à verdade que o envolve por todos os lados. Infelizmente, seu feitio todo antigo não permite conversas francas e leais sobre o assunto que tanto bem poderia trazer-lhe."
Após mais alguns meses em Caetité, vencido no propósito de ingressar na Companhia, Anísio deixou o sertão para iniciar a carreira do bacharel em direito. Na Bahia chegou ele, nos primeiros meses de 1924, a candidato a uma vaga de Promotor Público, possivelmente nas proximidades de Caetité. Contudo, mais feliz do que os jesuítas, o Governador Góes Calmon não demorou em conquistar o precioso auxiliar, cuja cintilante inteligência, luminosa, não demorou em admirar. Coube, porém, a Hermes abrir-lhe a porta do destino. Ciente da preocupação do Governador, que buscava alguém para ocupar a Diretoria da Instrução, Hermes sugeriu-lhe o amigo. "Lembrei-lhe o nome de Anísio, contaria mais tarde. Ele ouviu, fez perguntas, ponderou e expediu o convite." Convite inicialmente recusado, por se julgar Anísio despreparado para a função. Faria Góes, também amigo e colega de Anísio, confirmaria mais tarde as circunstâncias que cercaram o episódio.
"Góes Calmon - escreveu Faria Góes - era um faiscador de vocações e talentos para vida pública. Governaria com os moços que aliciava, inclusive entre estudantes das faculdades. No meio desses descobriria Hermes Lima, que convidou para o seu Gabinete Civil. Hermes, íntimo de Anísio, seu colega de internato no Antônio Vieira, depois no Rio contemporâneo seu na Faculdade de Direito, logo levou a Góes Calmon a conhecer o texto de dois dos artigos do amigo, aparecidos no apagado jornalzinho da distante Caetité." O destino tem os seus caminhos. Nós os desconhecemos. "O impacto daquele fluxo de idéias continuava Faria Góes -, denunciador de uma poderosa usina de pensamento, sobre o Governador recém-eleito foi decisivo e profético. Na primeira visita, que o candidato a promotor imaginou fosse cerimoniosa e protocolar, Góes Calmon, paternalmente, reteve-o para o almoço em família. E quanto à pretendida promotoria, de pronto lhe declarara: "Voltaremos a conversar amanhã, tenho outra idéia que não é a de deixar você retornar à sua cidade." No novo encontro, Calmon foi categórico: "Decidi, quero-o para o meu Diretor de Instrução Pública." Calmon era desses cuja palavra, imperiosa, não deixava margem a qualquer ponderação ou objeção. Para Anísio, pouco afeito aos problemas educacionais, a surpresa era total. Para Calmon, empenhado em renovar quadros e convocar os melhores, Anísio era uma dádiva do céu. Uma dádiva não apenas para a Bahia, mas para o Brasil. Naquele ins
tante, inesperadamente, nascia o "estadista da educação." Talvez um acaso. Em verdade, a semente posta em terra fértil. Observou Péricles Madureira de Pinho ao comentar a imprevista decisão do Governador Calmon: "O que houve de extraordinário no acontecimento não foi a escolha de um homem de 23 anos para tão importante função. O essencial do evento é uma vocação de filósofo, preparada em estudos severíssimos desde a adolescência, ser endereçada a um campo tão precisado da elevação do plano tradicional, para o verdadeiro sentido que tem na evolução do pensamento humano." O destino colocara Anísio no lugar certo. Seria a virtude de Maquiavel?
Nessa ocasião, Gilberto Freyre, Oficial de Gabinete do Governador Estácio Coimbra, conheceu Anísio. Mais tarde, escreveu que assim como Estácio Coimbra desejara encaminhá-lo na política, Góes Calmon teria pensado em fazer Anísio um herdeiro político. "Na mocidade inquieta de Anísio Teixeira, diria Gilberto Freyre, a argúcia de Góes Calmon claramente enxergou esta virtude: a de representar para o seu governo o contato com um futuro para o qual ele sabia que o Brasil de então devia acelerar o ritmo da marcha. Não se enganava: Anísio Teixeira era, com efeito, um antecipado aos homens de sua própria geração no modo de procurar resolver problemas brasileiros por uma renovação de métodos mais apolíticos que políticos de ação, que importasse para o Brasil em verdadeira modernização social." Nem Anísio nem Gilberto tomariam, porém, o caminho da política.
Anísio não demorou a se instalar na Pensão Tanner, uma das várias existentes do Corredor da Vitória, habitualmente freqüentada por estrangeiros, principalmente franceses da Companhia Docas e da Chemin de Fer. Para secretariá-lo, chamou o poeta Godofredo Filho. Era a atração das inteligências. De Godofredo Filho é o testemunho daqueles dias de sonhos e de esperanças: "Anísio parecia infatigável, terrível trabalhador do estofo de Napoleão e do Papa Alexandre VI." Pelo seu apartamento passaria então, dir-se-ia, toda a Bahia que pensava. Era uma festa da inteligência. Recordou-a Godofredo Filho: "Mas, os da geração a que pertenço é que lhe tumultuavam o apartamento e conquistavam-lhe os redutos da amizade. Havia-os de tendências políticas as mais díspares, de temperamentos os mais diversos, de inteligência e sentimentos os mais variados. Reuníamo-nos com Anísio em dias não marcados da semana, prolongando seu jantar, de que muitos compartilhavam, pois, que apesar de sóbrio, tinha sempre convidados à mesa. E as dissertações, as polêmicas entravam não raro pela madrugada. Vez por outra Anísio nos deixava galopando no dorso das palavras, e recolhia-se ao trabalho em que a manhã não raro o surpreendia..." Recatado, discreto, mais de livros do que de festas, era ele vivo contraste com a juventude boêmia de que a Bahia era pródiga. Não se lhe conheciam aventuras amorosas, e somente os mais íntimos sabiam haver olhado com encanto um perfil feminino. Ele já emigrara para o Rio quando
o antigo companheiro escreveu-lhe, talvez indiscreto: "Ontem, encontrei F... vestida de branco como sempre e muito bela na sua alvura sem brilho, quase tocando a morenez. Pensei então em lhe dar a notícia, na suposição de que ela viesse serenar por um instante o mar alto em que V. vive. Mas, tive escrúpulos. E se for o contrário? Se eu vier a soprar sobre cinza? Afinal, de seus velhos amigos sou o único a saber desse caso. Desse caso? Não. Do vôo de uma garça branca sobre a água parada de um sonho." O tom poético encantou o destinatário. Anísio não retardou a resposta, acusando a carta romântica: "Podia imaginar tudo, menos que fosse sua e que me trouxesse aquela lembrança. A última vez que a vi foi no gabinete de Diretor de Instrução aí. E mão e coração tremeram de novo, como haviam tremido muitos meses atrás. Depois, por duas vezes, os meus olhos a viram na rua Chile, apoiada ao braço masculino de alguém. Daí para cá, vi-a no seu rápido poemazinho epistolar. E como foi mais doce a sua imagem. Li e reli a sua carta e pelo bonde afora ficou-me nos olhos e no cérebro um encantamento que não sei se era de suas palavras, se da imagem que elas evocavam". E, agradecido à boa lembrança, concluía: "Obrigado pelo pequenino grande bem que me fez!" A velha lembrança fazia bater mais forte o coração do exilado.
Em breve, Anísio começou a ser dos freqüentadores da casa dos Madureira, também no Corredor da Vitória, pouco adiante da Pensão Tanner. Curiosamente, o traço de união entre Anísio e aquela casa tão baiana, e por isso mesmo tão brasileira, onde pontificava o Dr. Madureira de Pinho, jurista, orador famoso, político, foi um francês, Félix Michel Poncet, representante de uma casa importadora de fumo. No fundo, porém, um devoto da cultura e da inteligência, ledor de Maurras e Daudet, convicto partidário da Action Française. Escreveu Péricles Madureira ser ele "um francês típico, com o patriotismo exaltado de soldado da 1ª Grande Guerra." Hóspede da Pensão Tanner, logo se tornara apaixonado admirador de Anisio, que conduziu para a companhia dos Madureira, cujo lar se convertera "num foyer em que o lume da inteligência aquecia a convivência da inteligência". Quem não se apaixonaria pela inteligência de Anísio?
O velho Madureira, assim o chamávamos, embora ainda não houvesse atingido os 50 anos, orgulhava-se daquele pequeno cenáculo, que lhe enchia a casa e onde, ao lado dos filhos, Péricles, Demades e Demóstenes, conviviam jovens estudantes. Nenhum possuía o fascínio de Anísio.
A todos nós, mais jovens, desvanecia a companhia daquele amigo já famoso, e que havia algum tempo admirávamos de longe. De Péricles Madureira é esta recordação: "Os meninos do Corredor da Vitória vimos, naqueles primeiros anos da década de vinte, surgir um rapazinho magro, de óculos, sempre carregado de livros. Morava numa pensão da rua e já se falava na sua poderosa inteligência."
A tranqüilidade não convive com os reformadores. Embora nada tivesse de um revolucionário, Anísio jamais renunciou ao desejo de reformar para melhorar. A rotina era com ele incompatível. Inteligência em permanente busca da verdade, que não acreditava estática ou definitiva, sua ação voltava-se para o esforço no sentido do aprimoramento. Atitude incômoda para a grande maioria, geralmente conformada e adaptada ao status quo. Em regra, toda mudança é agressiva, e suscita reações. Anísio, em verdade, era um inconformado. Nas grandes ou nas pequenas coisas, nas grandes linhas de comportamento, a sua aspiração estava sempre voltada para uma permanente e sempre renovada busca da verdade mais próxima. E mal a encontrava, ele próprio começava a questioná-la, certo de poder melhorá-la.
Inspetor Geral da Instrução, esse o nome do cargo no qual iniciou a carreira do educador, Anísio conservou a inquietação de sempre. Desde o Governo Luiz Viana, em 1896, do qual foi Secretário Sátiro Dias, quase nada se fizera no campo da educação. Anísio sacudiu-a com a fé de um missionário. Começou elaborando amplo Projeto de Lei, para transformar e ampliar o ensino. Em 1925, o projeto transformou-se em lei, suscitando veementes debates no legislativo estadual, onde Hermes Lima foi dos mais presentes defensores da proposta, cuja filosofia contrariava a Escola Única, em grande voga com os trabalhos de Carneiro Leão. Enquanto em São Paulo se buscava alfabetização em massa, apressada, na Bahia, por circunstâncias peculiares, não bastava a simples alfabetização. Luiz Henrique Dias Tavares, num estudo sobre a reforma de Anísio, dela fez essa síntese: "Não se tratava, portanto, de 'alfabetizar em massa', mas sim de educar maior número de crianças, para que adquirissem o maior número de conhecimentos na melhor escola permitida. E isso era inovação na Bahia." Eram muitas, aliás, as faces da reforma, que além do problema da participação dos municípios, cuidava da Escola Primária Superior, do Ensino Médio, do Ensino Normal e Profissional, e do professorado.
Apoiado pelo Governador Góes Calmon, Anísio logrou a multiplicação dos pães. As matrículas, no ensino primário, ascenderam, de 47 mil, em 1924, para 79 mil, em 1927. As despesas com o ensino subiram de 4% para 12% da receita do Estado. E com visível satisfação pelo realizado, ele escreveu no Relatório, em 1928: "O interesse pela instrução é uma realidade à vista de todos. As menores localidades estão aprendendo a ter orgulho pelas suas coisas de ensino e a se porfiar nas conquistas de educação. A construção dos prédios escolares pelos municípios, com auxílio do Estado, a solicitação de localização de escolas, o interesse local pelo bom mestre, a fiscalização exercida por patriotismo, o estímulo do professor para se aperfeiçoar e progredir; são alguns exemplos demonstrativos desse largo, verdadeiro interesse que está a percorrer todo o Estado nas coisas de educação."
Afirmativas exatas. Havia, porém, outro lado da moeda. Feridos pequenos interesses pessoais, a reforma se prestou a um mundo de críticas contra o jovem Diretor Geral da instrução, logo acusado de ignorar as decantadas realidades baianas. Principalmente a vitaliciedade do magistério apresentada como velha e necessária conquista que a reforma eliminava, seria um dos motes de que a oposição se fartou, nos ataques a Anísio. Contudo, indiferente aos aspectos políticos do assunto, Anísio, tal como os missionários, jamais faria concessão contra o que julgava o melhor, embora pronto para mudar as suas idéias. A época era de revoluções. Os anos de 22 e 24 haviam passado. Agora a Coluna Prestes inquietava o interior do País com a sua marcha e as suas lendas. Por coincidência, Anísio iria senti-la de perto. Nos fins de maio de 1925, ele voltou a Caetité, e sobre a viagem faria conferência no Instituto Histórico da Bahia. Era período de chuvas, e as águas alegraram o coração do sertanejo. "Pequenos ribeirões, descreveu, ganhavam vulto inesperado, lagoas ressurgiam do solo imprevistas, estradas ontem transitáveis desfaziam-se em tremedais terríveis, enfim, todo um ímpeto efêmero da natureza imprimia ao cenário essa fisionomia transitória de forças em ensaio. Tudo isto, porém, emprestava ao panorama uma sedução quase dramática". E concluía embevecido: "Tinha-se a impressão de uma terra em festa".
Mas, contrastando com a festiva paisagem, mal ele pousou em Caetité noticiou-se a aproximação dos rebeldes. Trouxera a notícia um vendedor ambulante, vindo de Livramento, distante 18 léguas. Anísio narrou as horas que se seguiram: "Foi o sinal de alarme e de pânico. Por toda a noite, a população, em grande sobressalto, abalou, desenganadamente para fora da cidade. Admiravelmente identificadas com a caatinga, quando clareou o dia, quatro mil pessoas haviam desaparecido não se sabia para onde... Carros de boi surgiam, como por encanto, nas ruas, mas para assumirem proporções de veículos de luxo, que poucos poderiam pagar. A debandada se fazia a pé, pela noite a dentro, debaixo da inclemência de um inverno sem precedente que ainda perdurava. As poucas famílias que tentaram conservar-se na cidade retiravam-se um dia depois, pela falta absoluta de subsistência no perímetro urbano. Toda a vida se paralisara." Durou dias a dramática expectativa. Depois, Prestes passou ao lado da cidade, acompanhando a linha divisória das águas, para atravessar com segurança pelas cabeceiras dos rios. "O sertão vivia uma página da idade média - diria Anísio. A organização social e legal precária sofria o abalo profundo e desorientador que costumava afligir a sociedade medieval quando as guerrilhas entre senhores a assolavam. Apenas o contato rubro com o exército foi ainda mais terrível.'' Inesperadamente, o educador testemunhava um episódio da história das revoluções.
Inspetor Geral da Instrução, Anísio esteve três vezes no estrangeiro. Em 1925, Ano Santo, viajou ele com D. Augusto Álvaro da Silva, Ar
cebispo Primaz da Bahia, já afirmado como inflexível missionário da fé. Seguira diretamente à Espanha, onde, em Manresa, para o Santuário de Santo Inácio. Depois, hóspede do Colégio Pio Latino-Americano, recebera-o Pio XI pela mão de D. Augusto. Por último, em Paris, abrigara-se num convento. E aos que com ele então conviveram não ficou a impressão de haver a viagem lhe aumentado a fé. Dir-se-ia nada se haver alterado na luta íntima em que se debatia o antigo aluno dos jesuítas.
Depois, em abril de 1927, comissionado pelo Governo da Bahia para observar a vida educacional nos Estados Unidos, Anísio conheceu o mundo, que lhe mudou as convicções filosóficas. Na famosa entrevista a Odorico Tavares, em 1952, ele diria com simplicidade: "Um incidente, porém, frustrou a minha aventura religiosa..." O incidente fora a protelação por um ano, após a formatura, do ingresso no Noviciado conseqüência da oposição dos pais, e também da prudência dos padres inclinados a que mais lhe amadurecesse a vocação. Nesse interregno chegara, porém, o convite para a Diretoria Geral da Instrução. Tudo mudaria na vida de Anísio no lugar da vocação religiosa surgiu a vocação do educador, que não mais o abandonaria, pondo raízes sempre mais fundas, e sobre as quais se levantaria a personalidade de estadista da educação. Para boa parte dos seus amigos e companheiros, entre os quais posso lembrar Hermes Lima, Nestor Duarte e Jaime Ayres, todos agnósticos e liberais, era uma ventura vê-lo libertado das peias ultramontanas dos jesuítas. Jerusalém libertava-se. Libertava-se graças ao conhecimento dos trabalhos de Deway, o filósofo que, na América, revolucionava os princípios da educação. Fruto dos novos caminhos é o pequeno volume Aspectos americanos de educação, no qual sintetizou "o filósofo que mais agudamente traçou as teorias fundamentais da educação americana": "Tornara a criança um membro da sociedade, e membro com plenos direitos e plena eficiência, é tudo o que busca realizar a educação." Não estaria ai quanto Anísio sonhou como educador?
Contudo, o passo definitivo ele somente o daria no ano seguinte quanto voltou à América em busca do diploma de Master of Arts, na Universidade de Colúmbia, em Nova York. Mas, se sob o ponto de vista da filosofia educacional o grande acontecimento dessa estada na América seriam a familiaridade com o pensamento de John Deway e o contato com Kilpatrick, renomado mestre da Universidade, sob o ângulo das relações pessoais o relevante foi o encontro com Monteiro Lobato. Ainda não se conheciam, e Lobato não custou a se apaixonar pela inteligência, e mais do que pela inteligência, pela personalidade de Anísio. Este era encantador. Pela vivacidade da rara inteligência, pela simplicidade, pelas maneiras afáveis e educadas, pela sedução pessoal. Sob o ponto de vista da relações pessoais, o grande fato seria o encontro com Monteiro Lobato. Anísio assim o evocaria, em carta a Fernan
do de Azevedo: "Fomos, cerca de dez meses, dois companheiros inseparáveis que buscaram entender e interpretar juntos o laborioso triunfo americano. Ele, mais voltado para as coisas econômicas; eu, para os aspectos da educação, ambos, entretanto, norteados por um sadio idealismo comum de humanidade melhor e mais feliz. E de um lado e de outro trazíamos para as palestras intermináveis que mantínhamos aos domingos, uma cópia inaudita de fatos e observações com que alimentávamos e saciávamos o nosso idealismo. Foi uma esplêndida temporada de entusiasmo." O idealismo borbulhava: a educação e a confiança no Brasil uniu-os definitivamente. Anísio chegara a Nova York tateante e inseguro. Atônito diante da grandeza da América. Lobato abrira-lhe os braços e desvendara-lhe caminhos. Ele nunca mais o esqueceria. "Você me acolheu um dia, diria Anísio a Lobato, quando quebrava a cabeça, inquieto, diante da revelação americana, para me dar o presente magnífico de sua convivência e de sua amizade". E uma profunda admiração cimentaria a gratidão. Quando Lobato morreu, em 1948, Anísio sobre ele escreveu uma frase lapidar: "A arte não era o seu trabalho, mas o seu repouso."
Ambos amavam Nova York. "Um dia de Nova Yorkescreveu Lobato - vale uma vida no Brasil - pelo menos ensina mais que ela". Para Lobato, Anísio era "a Inteligência Pura", e a ele dirigiu esta expansão de amizade: "Ninguém te substitui, Anísio. Não há no mundo uma personalidade e uma mentalidade mais viva, mais penetrante e iluminada que a sua. A vida sem o Anísio é uma porcaria - saiba disso". E, inconformado com a ausência do companheiro, escreveu-lhe Lobato: "A tua saída desfalcou a sério esta imensa cidade, e a vítima maior do desfalque fui eu." Sem o saber, falava por todos nós, amigos de Anísio.
Em verdade, Anísio partira um e retornava outro. "A crise religiosa conheceu ali o seu epílogo", escreveu Hermes Lima. Iniciada em 1927, completava-se a libertação de Anísio do fantasma das verdades reveladas, e a sua reconciliação com a filosofia que primeiro o influenciara, a do espírito naturalista e científico. Ele regressava "lapidado pela América", escreveu Lobato.
Dessa fase da vida e da nova vocação de Anísio, fez Hermes Lima esta síntese: "O ciclo americano de estudos fez história na carreira e na filosofia de Anísio Teixeira. A cena social dos Estados Unidos, sobretudo vista da Universidade, que foi o campo onde ele pensou e trabalhou, reforçou-lhe a fé democrática e republicana, ampliou-lhe as perspectivas futuras da obra educacional, ofereceu-lhe a motivação de um pensamento organizador que se arrematava por sua concepção do mundo naturalista e científico. A ambiência respirada na América, os contatos intelectuais e pessoais, a atmosfera antidogmática do ensino, as aberturas da pesquisa e da especulação filosófica, tudo isto conduziu-o a conceber e interpretar o mundo fora das quatro linhas da mística je
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suítica em que se enleara. Sentiu-se realmente libertado, não porque houvesse adquirido, em lugar das velhas certezas definitivas, novas certezas definitivas, mas porque aprendera um processo, um método diferente de pensar e colocar problemas." Daí por diante a verdade não mais será revelada, mas procurada e incessantemente renovada. "Só a busca escreveu Anísio a Lobato - é interessante; o achado sempre pobre, incompleto e infeliz."
Desejoso de não guardar apenas para si o privilégio da grata amizade, Lobato fez Anísio portador de uma carta para Fernando de Azevedo, então em plena celebridade como educador. A carta era derramada: "Fernando. Ao receberes esta, pára! Bota pra fora qualquer Senador que te esteja aporrinhando. Solta o pessoal da sala e atende o apresentado, pois ele é o nosso grande Anísio Teixeira, a inteligência mais brilhante e o maior coração que já encontrei nestes últimos anos de minha vida. O Anísio viu, sentiu e compreendeu a América e aí te dirá o que realmente significa esse fenômeno novo no mundo. Ouve-o, adora-o como todos os que o conhecemos o adoramos e torna-te amigo dele como me tornei, como nos tornarmos eu e você. Bem sabes que há uma certa irmandade no mundo e que é desses irmãos, quando se encontram, reconhecerem-se. Adeus. Estou escrevendo a galope, a bordo do navio que vai levando uma grande coisa para o Brasil: o Anísio lapidado pela América." Mas, acima de tudo, levava um Anísio que retornava convicto de poder melhorar o Brasil pela educação. E a América não lhe sairia do espírito. Mais tarde, escrevendo a Afrânio Peixoto recém-chegado da América afogado em admiração, Anísio referia-se à "nossa América." Sim, a América, com as suas Universidades, a sua liberdade, a sua democracia, numa palavra a sua nova civilização, o conquistara para sempre. A Arquimedes Guimarães, confidente de muitos anos, ele escreveu de Nova York, em abril de 1929: "Da América levarei, sobretudo, a independência e liberdade de inteligência que os meus últimos estudos me deram. Mais do que da educação, foi nessa viril e humana filosofia moderna que me ocupei nesses meses tão rápidos e tão intensos que aqui vou passando. A definitiva aceitação de uma atitude científica na explicação de todos os fenômenos da vida não só me deu uma rara tranqüilidade intelectual, como ainda um programa de ação."
Fernando de Azevedo não demorou em se render ao novo amigo. Uniu-os recíproca admiração. Pouco depois ele escreveria a Anísio: "Às vezes, transportando-me em pensamento aos dias de minha infância, tenho a impressão de encontrar entre os meus companheiros de idade o meu caro Anísio, que há três anos trouxe à minha presença a mão generosa de Monteiro Lobato. Ele sabia e o declarou em sua carta que nos tornaríamos grandes amigos. O interesse pela educação e a comunidade de idéias completaram a obra que a simpatia recíproca iniciou, tornando indissolúvel, pela mais profunda solidariedade inte
lectual os laços apertados pela força de comunhão de sentimentos." Amigo de ambos, Lobato acertara em cheio. O ideal dos educadores os uniria definitivamente.
Para Anísio o encontro foi providencial ele voltara esmagado pela América. Havendo observado o vulto do trabalho e dos gastos na educação, assaltara-o certo desanimo quanto à possibilidade de qualquer realização em meio à nossa pobreza. Salvou-o Fernando de Azevedo, a quem ele próprio confessaria em carta que lhe escreveu: "Eu já lhe disse aí o bem que me fez esse contato com o seu espírito e com a sua obra Saíra da Bahia direto para Nova York. Lá estive dez meses. O exame diário do trabalho gigantesco dos Estados Unidos em matéria de educação, a visão do que ele envolvia de complexidade, de conhecimento especializado e dinheiro, a compreensão mais viva desse exasperante determinismo econômico do progresso moderno, me haviam feito, deixe que lhe diga, meio cético a respeito da possibilidade de uma obra educativa séria em nosso meio. Mesmo que nos sobrasse dinheiro, faltava-nos conhecimento técnico e especializado para realizar uma obra que é essencialmente uma obra de cooperação e de grupo. Cheguei mesmo a pensar que era cedo para um trabalho de renovação propriamente da escola."
O depoimento dá a medida do desânimo do educador. A carta, contudo, continuava agradecida: "Foi esse viajante meio descrente que desejou, antes de chegar ao seu Norte atrasado e lento, conhecer um pouco do que V. estava fazendo nesse Sul, onde as coisas parece que já despertaram. Vi muito pouco e vi às carreiras, mas o que vi fez-me bem." Até ao fim a carta é confissão de surpresa e entusiasmo. "Li na viagem - dizia ele ao destinatário - o seu Regulamento e ele confirma o paradoxo de Deway, de que as nações novas e menos adiantadas têm hoje melhores oportunidades educativas que os países de progresso amadurecido, e isso porque naqueles a renovação não tem os empecilhos que encontra nas tradições e nos interesses das velhas correntes e velhas máquinas de educação desses outros países que começararn mais cedo. Ajunte a isto o contato pessoal com V. e com os seus auxiliares e compreenderá a razão porque a minha ligeira passagem pelo Rio valeu por uma renovação do meu entusiasmo."
De fato, jamais esqueceria o encontro providencial. Bem mais tarde, em fevereiro de 1960, Anísio voltaria ao assunto, evocando-o agradecido: "Telefonei ao Agostini - dizia ele a Azevedo - para me valer da sua memória, a fim de recordar o dia do nosso primeiro encontro - recém-vindo eu dos Estados Unidos e da Columbia Uni
versity e V. em pleno vôo da reforma educacional do D.F. - para, como diz, e eu confirmo de todo coração, o começo de uma amizade que não teve nem sofrerá desfalecimento. Não conseguimos localizar o dia - mas, quanto ao mês, deve ter sido em fins de junho ou começo de julho, e ano foi o de 1929 e não 1928, como V. julgava. Fiz no T.C. da Columbia University o ano regular de 28/29, graduando-me nos últimos dias de maio. Viajei para o Rio, pouco depois". E, dando conta da importância que tiveram para ele os anos de 28 e 29, a carta continuava: "Esse foi um período extraordinariamente significativo em minha vida, que eu iniciei com o conhecimento de Lobato e se encerra com o encontro com no Rio, entre junho de 28 a junho de 29. Tenho a impressão que foi nesse ano que me encontrei comigo mesmo. O ano de estudos na Columbia University, a descoberta de J. Dewey, a revisão (ou conversão?) filosófica, e as grandes amizades intelectuais Lobato, Fernando, Lourenço, Afrânio e quantos e quantos outros..." Sem dúvida nascera um novo Anísio, livre da sombra jesuíta. A educação era o seu ainda na América, Anísio foi convidado, nos fins de 1928, para paraninfo das professorandas do Colégio dos Perdões na Bahia. Impossibilitado de comparecer, ele enviou o discurso, leu-o Arquimedes Guimarães. "Foi um esforço - escreveu para fazer um pouco de idealismo. ao sucedi, porém. Em grande parte está utópico e pouco prático. Talvez, porém, outros o entendam melhor do que eu mesmo." Uma nota de idealismo seria dele inseparável.
Pouco conhecida a oração é o primeiro de documento do qual emergem nítidas as dúvidas do idealista lapidado pela América. Para os que o lerem nas entrelinhas, o discurso tem muito de autobiográfico. Dele sobressai uma quase confissão: "A grande aventura - diria ele às jovens professorasdesse longo período de tateamento, de adivinhação, de dúvida, de esplendor de nossa adolescência, é a descoberta de nós mesmos. Era Anísio falando de Anísio. E o discurso continuava: "Debalde tentamos nos iludir no ardor de nosso entusiasmo. Não são as filosofias, que nos fascinam. Nem as afeições. Nem os jogos e os esportes. Nessa época turbulenta e formosa dos dezoito anos, nós somos o nosso fim. É o romance de nossa adolescência que nos arrebata. Fala alto, dentro de nós, esse sentimento fundamental de que nós preexistimos a tudo que existe. Reinterpretamos toda a vida em função de nós mesmos. É a verdade que extrairmos dessa análise sincera e longa é que tudo há de obedecer."
O importante, e que necessitava permanecer acima de tudo, era a fidelidade de cada qual a si mesmo. "Só a infidelidade, afirmou porém uma continuada e consciente infidelidade a nós mesmos, à nossa lei, à nossa natureza, à nossa vocação, é que pode quebrar o quadro do nosso destino e fazê-lo banal e triste. A grandeza da vida dos heróis e dos santos não tem outro segredo senão o desta intrépida fidelidade a si mesmo".
Não restava muito do dileto aluno do Padre Cabral. E, como se voltado para dentro dele próprio, Anísio continuava: "Que me importa que a vida semeie de insídias o meu caminho ou que os homens espalhem surpresas venenosas na minha marcha, se eu levo e ouço em mim o
sonho, a minha revelação, as minhas 'vozes', como dizia Santa Joana D'Arc, e se a elas só obedeço e sigo, como a regra permanente de minha vida? ... Podem as contingências semear de tempestades a minha estrada ou a fazer monótona e vazia como um deserto, eu não vivo na companhia das contingências, mas na companhia de mim mesmo. E onde eu estiver, 'arte e natureza, esperanças e sonhos, amigos e anjos, e o próprio Deus não hão de estar nunca ausentes'." Era a invocação de Emerson, dizia em seguida: "Aos que assim fizeram não esperam decepções e a realidade há de ser mais formosa do que os sonhos de adolescência, porque há de participar dos segredos que fazem os santos e fazem os heróis".
Por toda a oração perpassa a imagem do idealista, um pouco do missionário, que ele trazia na alma. E acrescentava sobre o ideal: ter ideal importa, pois, em entender seriamente a vida, vivê-la com uma nobre sinceridade, sem ilusões e sem embustes, praticando os nossos talentos com esforço e com entusiasmo,como se praticássemos os nossos deveres." No final, Anísio levantava o véu sobre as transformações do nosso tempo: "Tal transformação, dizia, se vê acompanhada de uma irreprimível e generalizada aspiração de liberdade, de exame e de revisão da própria filosofia da vida. Inegavelmente, nunca nos sentimos tão corajosamente dispostos à revisão de nossas idéias, tão escrupulosos na aceitação de princípios, tão ansiosos por uma filosofia esclarecida e consciente para a nossa orientação na viagem inquieta da vida. Estamos envolvidos em uma atmosfera de livre exame, com a qual buscamos um novo e mais íntimo ajustamento às nossas concepções da vida e uma nova e mais íntima sinceridade conosco mesmos." Não precisa dizer mais.
Na bagagem do Master of Arts da Universidade de Colúmbia não retornaria uma verdade revelada e eterna. Em seu lugar vinha o livre exame e a inquebrantável vontade de pesquisar e rever na procura de uma verdade, que sabia transitória, e por isso mesmo incessantemente buscada. Como natural, não foram omitidas as crianças e a nova escola que lhes abriria os caminhos da vida. Tendo observado detidamente a Escola Americana, ele a via como "a mais feliz escola do mundo." E desejava trazê-la e desenvolvê-la no mundo do qual partira. Preocupado com um profundo respeito pela sensível alma infantil, ele dizia à novas professoras: "Estudai constantemente essa alma tão fugidia e tão obscura, por vezes. Não julgueis nunca que a conheceis demais. As injustiças de incompreensão são as que mais doem. E quase nunca compreendemos as crianças. Queremos medi-las pelos nossos critérios. Queremos forçá-las aos nossos motivos. Mas, nós estamos muito adiante na vida. E a criança se debate sozinha no caminho, enquanto nós punimos a sua ignorância com a nossa irritação. Que as crianças que vos foram entregues nunca se sintam aterradas por esse isolamento, nem castigadas por não serem compreendidas." Embora simples, hoje
tão claros e fáceis aos nossos olhos, tais conselhos significavam a profunda transformação da escola. Era a escola nova e progressiva, na qual as crianças viveram livres de qualquer incompreensão, e a disciplinava, aceita e compeendida por todos. E o paraninfo concluía:
"Desejaria que levásseis a vossa benevolência, o vosso tato a vossa inteligência e vossa simpatia a um tal extrerno de delicadeza, que nunca se pudesse apagar nos olhos de uma criança a chama de confiança dla, lhe soubestes incutir." Despretensioso, franco, espontâneo, o discurso, reflexo de quanto andava no espírito do educador, não era utópico nem pouco prático, como ele dissera. Se pensava que outros talvez o entendessem melhor do que ele próprio, Anísio não se enganara - o idealismo sobrenadava, visível, na palavra do paraninfo e o educador tomava o seu caminho nunca mais o deixaria.
Anísio costumava proclamar a marcante importância dos anos decorridos entre a segunda viagem aos Estados Unidos e os primeiros vividos em seguida no Brasil. Dele é esta notícia a Fernando de Azevedo Um período extraordinariamente significativo em minha vida, que se iniciou com a descoberta de Dewey, o conhecimento do Lobato e o encontro com V., no Rio, entre junho de 28 e junho de 1929. Tenho a impressão que foi nesse ano que me encontrei comigo mesmo." O encontro com um Anísio do qual desaparecera a crença numa fé revelada
São muitos os testemunhos sobre a evolução religiosa e as convicções filosóficas de Anísio. Ele próprio, pôr vezes, abordou o tema, embora o fizesse com o pudor de quem preferia não fossem assuntos tão íntimos trazidos a público.Na verdade, a Bahia ainda não perdoara inteiramente aquela inteligência superior. Não perdoara, e por isso não o esquecera. Fizera-se até circular que, aproveitando a estada na América, e se ordenara como jesuíta. Lembro-me quanto esses alfinetes o irritavam. Nessas ocasiões ele extravasava. De uma carta de Nova York a Arquimedes Guimarães, em novembro de 1928, são estes comentários: "A notícia da minha ordenação apenas mostra que a Bahia custa a esquecer a legenda que uma vez lhe ensinaram. Creio que hei de ser sempre, na Bahia, uma vocação que falhou. Isso seria simplesmente cômico, se não houvesse a pequenina tragédia ou coisa que o valha, no fato de realmente mais do que essa pretensa vocação eu estou a reconstituir a minha filosofia, dirigindo-a para caminhos que me afastarão provavelmente até do próprio catolicismo. O trabalho que vem passando a minha inteligência, desde a minha primeira viagem à América e o seu pragmatismo, ainda não está terminado.
"Fora sem dúvida longo e árduo o caminho percorrido para alcançar inteiramente a filosofia pragmática de Dewey. Não era fácil apagar a marca jesuíta. E a carta continuava: "E sinceramente não sei até onde me levara, no sentido de abandono de algumas e aquisição de outra concepções sobre a vida. Quem sabe se não encontrarei motivos para uma reorganização mental, conservando as verdades que me pareciam
absolutas? Ele respondia: "Estou com a minha filosofia em franco período reconstrutivo. Escrevo-lhe isto e não será necessário insistir que é assunto que não desejo ver discutido na Bahia. Estou a estudar, estou a aprender, estou a renovar alguns juízos, mas é desagradável a gente se ver discutido nesses assuntos. Sirva-lhe tudo apenas para lhe autorizar a continuar a desmentir o boato." O boato de que se ordenara, lhe faria dizer pouco depois: "A Bahia me parece hoje como um dos lugares mais atrasados que presentemente existem na face da Terra." Dificilmente seria algum dia compreendido.
Poucas vezes ouvi Anísio discorrer sobre problemas de religião. Fazia-o, porém, de modo tímido, impessoal, como se debatesse assunto que não lhe era pertinente. De quanto dele ouvi ou dele li sobre as indagações da fé, nada me pareceu mais espontâneo do que a carta mandada à irmã Sinssinha, em agosto de 1939, a propósito de um livro de Alfred Adler, que ele traduzira, e certamente chocara o espírito religioso da irmã. Pela espontaneidade, simplicidade e nitidez, que imprimia a quanto escreveu ou debateu, é documento a revelá-lo tal como pensava. Embora longa, é essencial divulgá-la.
Anísio à irmã Sinssinha, Bahia, 5 de agosto de 1939:
"Vi a sua carta e notei a sua preocupação em afirmar que toda a verdade, com todos os seus desenvolvimentos, acha-se contida na palavra de Jesus. Isso hoje é até heresia. Se assim fosse, a religião paralisaria até a inteligência humana. Nada mais havia a buscar, tudo estava sabido e sabido definitivamente e para sempre. Você bem sabe que não é assim. A busca humana da verdade continuará, essa sim para sempre. A verdade religiosa quando não é pura verdade sobrenatural, mas toca o mundo natural, representa as grandes intuições do espírito humano, os seus momentos de inspiração divina. Que prazer, porém, ver-se que essas intuições acabam pôr se provar verdadeiras diante da experiência e da ciência experimental! Esse é o caso da natureza humana. Os nossos começos de ciência psicológica estão a coincidir admiravelmente com os mais altos ensinamentos religiosos. O que a psicologia diz hoje é que não poderá haver paz de alma, serenidade de coração e felicidade, enfim, enquanto não tivermos suprimido os pequenos desejos, os pequenos vãos egoísmos, o grosseiro espírito de dominação, as mesquinhas invejas do nosso insignificante 'eu', para plantar em seu lugar o grande e amplo amor aos nossos semelhantes, o espírito de serviço, a prontidão em dar e compreender."
Generosa, franca, a carta revela um espírito voltado para a solidariedade diante das fraquezas e dos sofrimentos da humanidade. Sobretudo, nenhum egoísmo. E a carta prosseguia no mesmo tom: "A personalidade humana, para se realizar, precisa de se esquecer de si mesmo e se entregar a algo maior que ela própria... Fora daí, ela não se constituirá, fragmentar-se-á, será miserável e infeliz. Longe de estar a psicologia fazendo mal à religião, ela, talvez a renovar, e, mostrando a sua
verdade profunda, obrigar os espíritos religiosos a voltaram à essência da religião e abandonarem as pequenas e as mistificações de sua forma. Porque a religião é aquilo que diz a psicologia e não o processo de auto-ilusão em que se transformou hoje, substituindo por fórmulas, convenções e cerimônias as grandes virtudes essenciais da humanidade. Não. Não basta para ser feliz, para conquistar o reino do céu, o gesto do amor do próximo, o gesto do espírito de sacrifício; precisa-se da coisa, precisa-se do sentimento, precisa-se ser humilde, ser altruísta, ser serviçal, ser franco, gostar realmente mais dos outros do que de si mesmo... E isso é que é a natureza humana no seu mais perfeito desenvolvimento. Adler não é contra Jesus. Adler é uma esplêndida confirmação de Jesus. Perdoe-me a tirada. Queria era mandar-lhe o meu abraço para Você e Mamãe e Tilinha e Didi e Deoclecianinho e todos desse Caetité e desse sobrado que não esquecemos". Aí estava o Anísio racional e afetivo. O Anísio no qual o coração equivalia à inteligência, e no qual já se apagara a verdade revelada. Esta devia ser racional, permanentemente buscada e aprimorada. No fundo, era a volta ao pensamento do velho Deocleciano.
Ainda uma vez Anísio reviu as próprias idéias. Corridos quatro anos sobre a reforma, período no qual estivera na Europa e nos Estados Unidos, entendera oportuno reformar-se a reforma, cujas deficiências pudera observar. "A revisão de Anísio Teixeira foi total, escreveu Luiz Henrique Dias Tavares. Mostrou que existiam apenas vinte crianças nas escolas elementares; que só funcionavam três escolas complementares; que só existia uma escola primária superior; que o único ginásio do Estado, o da Bahia, tinha apenas oitocentos alunos matriculados." Humilde, pondo a verdade acima de tudo, não procurou ocultar as falhas observadas na reforma de que fora ele o responsável. Chegara a hora de aperfeiçoar. Havendo Góes Calmon deixado o Governo, substituído por Vital Soares, este não aceitou agitar novamente as águas, repetindo os inevitáveis debates sobre as inovações de Anísio, que sentiu chegada a hora de recolher as velas. Foi o que faz, demitindo-se.
No íntimo, estava magoado pôr não concluir a obra ambicionada. No momento, entretanto, devia calar. É dele esta observação: "O fato de encerrar uma fase de minha vida - não foi outra coisa esse período de mais de cinco anos de dedicação e estudo dos problemas de educação da Bahia - sem as consolações de ter realizado alguma coisa, deixou-me broken-hearted. Faz hoje todo um mês, que eu dei, com uma demissão pretextada, o último traço nessa obra, cujo fracasso eu insistia, por amor, em não aceitar e ainda não estou curado do mal que isso me fez... Era preciso deixar que renascesse dentro de mim o estímulo para continuar a marolar". E dizia em seguida: "Outros situam os seus sofrimentos nos pequeninos dramas pessoais. A mim a natureza fez-me igualmente sensível a esses dramas - também pequeninos,
provávelmente de nosso trabalho e nossa missão." A missão... Anísio jamais deixaria de ser o missionário.
Ciente da exoneração, Lobato escreveu a Anísio com bom humor: "Já não és Diretor de Instrução. Curioso. Justamente quando te preparaste para ser um grande diretor de instrução, quando ficaste em ponto de bala, fora... Vai para o teu lugar um, o quê? um leigo, pois acho que é leigo todo homem que não conhece a América."
A América fora o sonho - Caetité a realidade. Ao regressar à Bahia, Anísio não retomava apenas a Diretoria da Instrução, mas também a política, que aguardara o possível candidato à Câmara Federal. Aliás, muitas coisas haviam mudado, a começar pela eleição de Vital Soares, sucessor de Goés Calmon, e Anísio não se sentira prestigiado para efetivar as reformas com que sonhara. Iam distantes os tempos em que ele escrevera ao pai: "No Governo atual conforta-me o exemplo do Dr. Goés Calmon, cuja orientação, se não lhe faltar o auxílio do patriotismo desta terra, levará a Bahia ao definitivo ressurgimento moral e administrativo. É um exemplo de sinceridade e de dedicação que poucos se encontrarão semelhantes". Agora, mesquinhos obstáculos da política, insatisfeita com as inovações do educador, dificultavam-lhe as reformas. E ele sentia que o vento era outro.
Certamente, fazia-lhe falta a presença de Hermes Lima, amigo dileto, e dele sempre um ponto de apoio, em que pese às diferenças, que os separavam. Anísio por muitos anos oscilara a um passo do ingresso na Ordem dos Jesuítas, enquanto Hermes jamais deixara de ser ostensivamente livre pensador. Boêmio, inclinado às noites alegres, Hermes era vivo contraste com aquele jovem austero, metido entre livros, e que todos nós respeitávamos pela pureza que dele ressumava. "Era puro, sem afetação", escreveu Hermes. Outro talvez não fosse compreendido. Anísio era a imagem que ninguém se animaria a ferir. Irreverentes, distantes das suas crenças de então, nós, seus amigos e companheiros, tudo esquecíamos para apenas admirá-lo na sua modesta integridade.
Hermes se desgarrara de nós, resolvido a concorrer à cátedra de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de São Paulo, da qual se tornaria livre-docente. "Verdadeira consagração", comunicou ele a Anísio. Contudo, desejava reeleger-se Deputado Estadual, para a Assembléia baiana, e contava com o apoio do amigo. Desejo impossível, pois havia algum tempo ele se afastara gradativamente do Governador Goés Calmon, e tornara-se inevitável a sua retirada da chapa. "O Dr. Calmon escreveu Anísio ao pai obedeceu a motivos justificáveis para excluí-lo." De qualquer modo era o inevitável, e Hermes, para desgosto dos seus amigos, como era o meu caso e o de Anísio, não mais retornaria à política da Bahia. De São Paulo ele se mudaria para o Rio. Aí voaria alto. Na Bahia, deixara o vazio num largo círculo de amigos que se iniciavam na vida pública.
Pôr algum tempo, impossibilitado de realizar o que imaginara no campo da educação, Anísio pareceu não saber o que fazer.
Por fim aceitou ser nomeado professor de Filosofia da Educação, na Escola Normal de Salvador. De fato era uma derrota, e nós acreditamos que ele se encaminhasse para a política, à qual não se podia dizer fosse infenso. Pouco antes de encerrar-se o Governo Calmon, ele escrevera ao velho Deocleciano: "Quanto a mim, as promessas são sempre grandes... Dizem que a minha candidatura era justíssima. Papai precisa não esquecer de que nestas ocasiões Vmce. volta a ser "corrente política" e a "mais verdadeira e tradicional do Estado"... Entretanto, para os direitos da política, nem sempre contam conosco. Enfim, dizem que me reservam a Secretaria do Interior no Governo Vital, em que dirigirei a política do sertão, serei o sucessor político de Vmce., etc., etc., etc." Infelizmente, para decepção do velho Deocleciano, a realidade não correspondera às promessas. O tempo passara e Anísio não fora nem Secretário, nem Deputado. Em 1930, eleito sucessor de Vital Soares, o Senador Pedro Lago insistiu com Anísio para novamente aceitar a Diretoria da Instrução. Informado, o velho Deocleciano, em agosto, respondeu categórico: "É melhor a deputação federal, pela qual deve insistir". Era velha aspiração. Não havia muito que, ao deixar a Diretoria da Instrução, Anísio comunicara a Lobato: "Já não sou Diretor de Instrução; anda a política cogitando tranqüilize-se! sem grandes probabilidades - de fazer-me Deputado..." Lobato logo respondera: "Deputado. Bravo. Como situação pessoal, como comodidade, nada melhor. Mas, com tua mentalidade renovada e toda brotos, como vais sofrer, meu caro amigo, a disciplina partidária - que é a mesma disciplina mental católica em outro campo... Leia Maquiavel e condene-o em público. Use da palavra para esconder o pensamento..."
De qualquer modo a deputação seria sonho, que a Revolução de 1930 soterrou inteiramente. Como faria nas horas de incerteza, Anísio retornou a Caetité, onde se sentia em segurança. Por ocasião da última viagem ao torrão natal, ele escrevera a Lobato: "Um mês no mato, pelo menos. Caçando, espojando-me, animalizando-me". Na verdade cada vez mais ele era o homo sapiens.
Vitoriosa a revolução, Anísio e eu tornamo nos "decaídos". Inicialmente, ele se homiziou em Caetité, donde dizia ser um exilado na velha e nobre casa paterna. O exílio não seria, porém, o pior. "Além da perseguição oficial, escreveu ele a um amigo, também entrou um grande e irremediável luto". É que morrera o velho Deocleciano encerrava-se austero ciclo político no sertão da Bahia. O que para ele significou o doloroso acontecimento podemos avaliar pelo que escreveu para Fernando de Azevedo quando este perdeu o pai: "Em fins de 1930, sofri o mesmo golpe, à distância e com a mesma surpresa, com que V. foi ferido agora, e sei bem avaliar o que isso significa para um de nós. Parece que se corta das mais fortes amarras, que nos equilibravam e reti
nham na continuidade dos nossos e da nossa terra. Com efeito, a cultura, a universalidade de interesses, a amplitude dos laços intelectuais que procuramos cultivar são uma constante possibilidade de desenraizamento, de exorbitação, digamos assim, não fossem certos outros laços mais profundos, de inteligência e de coração, que nos situam e nos prendem ao nosso meio. Os nossos pais, quando ajuntam às qualidades naturais, de pais, as de padrão e exemplo de inteligência e de caráter, realizam esse ponto central de referência que precisamos para nos sentirmos - nós mesmos.'' E o velho Deocleciano jamais fora outra coisa.
Sem a presença do pai, Anísio buscou a capital do País. "Voltei ao Rio, diria a Odorico Tavares, sem trabalho nem emprego". Levava, porém, uma grande paz espiritual e "um programa de luta pela educação no Brasil". Um programa para toda a vida. Na ocasião, nós, ambos sem grandes trabalhos, mantivemos regular correspondência, refletindo incertezas e esperanças. A ocasião era propícia para os que se julgavam prejudicados pelas reformas de Anísio no Governo Calmon buscassem feri-lo. Também amigos e colaboradores seus não foram poupados, e ele sofria por eles. Aos poucos, porém, habituara-se ao que chamava "a gente antropófaga da Bahia'', e, de longe, acompanhava mesquinhas perseguições. Parecia saturado: "Não acredito escreveu que a Bahia me possa surpreender nesse assunto. Tenho sobre essa pobre terra juízo formado." Inquietava-o, porém, a idéia de precisar retornar.
Para mim era essencial a volta do País à ordem legal. Comuniquei a Anísio: "Lancei aqui, a fundação do Centro da Propaganda Constitucional, que vai tendo a melhor acolhida entre a mentalidade moça." E, enunciados alguns apoios, acrescentava: "Pretendo obter o apoio dos Centros Acadêmicos das três Escolas, da A imprensa, e quantos mais queiram concorrer para essa obra tão útil ao País a Constituinte." Estávamos então em 1931. Para Anísio, entretanto, a educação era o ideal supremo. E convidado pelo Ministro Francisco Campos para trabalhar no recém-criado Ministério da Educação, não teve ele qualquer dúvida em retomar as armas do educador.
Anísio acreditava ter a sua existência dividida em ciclos de 7 anos. Para alguns eles seriam de cinco, para outros de sete, ou nove. "Os ciclos de minha vida parecem ser de sete", dizia. Não sei em que ciclo incluiria 1931. Mas nesse ano, tendo viajado para o Rio, ficou noivo de uma conterrânea, Emília Ferreira, cujos pais haviam emigrado para São Paulo "Devo-lhe dizer comunicou a Lobato que estou noivo aí em São Paulo." Na Bahia, para os amigos, era, se não uma surpresa, pelo menos o inesperado. Ele próprio, encantado, alegre como um adolescente acariciado pelo amor, escreveu à mãe, que, em Caetité, sofria a viuvez: "Mamãe já deve ter recebido meu telegrama em que lhe comuniquei que fiquei noivo de Emilinha. Estive agora quinze dias em São Paulo e me convenci que levo aí para casa uma criatura tão boa e tão simples, que, pelo menos, esses problemas de ajustamento ela não terá.
Eu que vivia cogitar de uma mulher intelectual e emancipada, vou afinal me casar com uma criatura que é tão sertaneja e tão simples como qualquer que eu fora escolher no sertão." O noivo transbordava de alegria, exultava. A carta continuava: "Adeus. Esta carta está engraçada. Mas, é que estou sentimental e satisfeito como se tivesse dezoito anos." Sentia-se adolescente. Não serão adolescentes todos os amorosos? Na realidade, breve intervalo na luta do educador. Em maio do ano seguinte, Anísio se casou. Não havia muito que em 15 de outubro de 1931, assumira ele a Diretoria da Educação do Rio de Janeiro. Pouco conhecido, muitos o veriam como obscuro educador da província.
Dizia Afrânio Peixoto ser o Rio de Janeiro a grande vitrine do Brasil. Agora, trabalhando no Ministério da Educação, Anísio participava dos trabalhos de reorganização do ensino secundário. Viera pela mão de Themístocles Cavalcanti, seu colega de turma, e a vitrine foi ótima oportunidade para tornar conhecida e admirada a singular personalidade do educador, conversador extraordinário, inteligência viva, polêmica, por vezes parecendo debater as próprias idéias. Principalmente de Fernando de Azevedo, a quem substituiria, logo se tornara íntimo. Rapidamente se ampliava o círculo de amigos, poder-se-ia dizer dos admiradores, entre os quais se incluíam Afrânio Peixoto, Lourenço Filho, Delgado de Carvalho, Almeida Júnior e Mário Casassanta. Era a nata dos educadores brasileiros, todos empenhados em novos caminhos para a educação nacional. Alguns se sentiam frustrados pôr não haver a Revolução de 1930 trazido as transformações esperadas, e antes prenunciadas nos trabalhos de Lourenço Filho, no Ceará, e Fernando de Azevedo, em São Paulo.
"Desse primeiro contato de Anísio com o Rio de Janeiro da Revolução - escreveu Hermes Lima - ele transmitiu a Luiz Viana algumas impressões acerca do clima político reinante." Antes de tudo, o ambiente de incertezas e confusões, "boatos estranhos que atingiam a própria estabilidade do governo central e, sobretudo, do governo de São Paulo." Parecia-lhe haver "um descontentamento generalizado de gente que não sabia bem o que queria e não sabe bem o que conseguiu. Corria-se o risco, argumentava, de ver-se a história da revolução brasileira como a história de uma revolução que se perdeu."
Nesse ambiente de inquietação surgiu a idéia do famoso Manifesto dos pioneiros da educação nova. Redigiu-o Fernando de Azevedo. Dos amigos de Anísio era este dos mais entusiastas, e de São Paulo escreveu-lhe cheio de fé: "Nós precisamos estabelecer uma corrente constante de comunicação para não esmorecermos na grande aventura de reconstrução educacional, em que estamos empenhados." Havia alguns anos mergulhado nos problemas educacionais, ele sabia dos percalços e dificuldades a enfrentar. Ambos pagariam alto preço pela tentativa de renovar a educação.
Em fevereiro concluiu-se o Manifesto. Fernando de Azevedo a Anísio: "Como já deve ter sabido pelo Venâncio, está concluído o manifesto educacional, que fiquei de redigir. Li-o ao Venâncio, antes de qualquer revisão Depois que ele partiu, pus-me a revê-lo e a corrigi-lo. Já está sendo passado à máquina a estas horas."
O documento, longo, Azevedo estimava-o em uma página do Jornal do Comércio. Sobre ele meditara detidamente. "Pensei mais de um mês, no manifesto, antes de começar a escrevê-lo", comunicou a Anísio. Satisfazia-o constatar que refletia idéias comuns a ambos. E dizia a Anísio: "Alegrou-me ouvir do Venâncio, quando acabei de ler o manifesto, que, no correr da leitura, lhe parecia a cada momento estar ouvindo a você, tal a afinidade de nossas idéias." Fruto de idéias acalentadas e amadurecidas por muito tempo, eram de algum modo a estratificação do pensamento que inspirava as revoluções iniciadas em 1922 e 1924, e continuadas em 1930. Havia, porém, um vazio a preencher, e tanto Anísio quanto Fernando Azevedo consideravam urgente preenchê-lo por uma ação coletiva. "Parece-me", escreveu-lhe Azevedo, "que o ciclo das revoluções, que se abriu em 1922, não se encerrará senão quando o governo tiver bastante força para evitar 'a revolução nas ruas', e bastante clarividência para começar 'a revolução nos espíritos', pelas grandes reformas políticas, econômicas e educacionais". Destas o manifesto dos pioneiros propunha-se a ser a grande voz. Era imprescindível unidade de ação, e Azevedo insistiu com Anísio: "Nesse momento de confusão, é preciso definirmos a nossa posição, estabelecendo os nossos princípios fundamentais, o nosso programa de reconstrução educacional. Isto terá uma grande importância, não só como uma nota clara de coesão, firmeza e coerência, no meio do caos, senão também como uma afirmação de princípios. Será a primeira vez que educadores no Brasil - e no momento mais grave da sua história- se apresentam com um programa de diretrizes definidas, enquanto à volta deles se multiplicam e se baralham as opiniões, fluidas e inconsistentes, no exame dos problemas nacionais." Muitos deviam ser os chamados. E Azevedo dizia, vigilante: "Insisto sobre a assinatura do Carneiro Leão, e, particularmente, de Afrânio Peixoto. Peço-lhe dar-lhes a ler o manifesto e obter-lhes, com a aprovação, as assinaturas." Ambos acabaram acedendo à solicitação. "É preciso estarmos vigilantes para obtermos desse manifesto todo o efeito que procuramos, já de manifestação de idéias, já de consolidação do bloco ou do grupo que o vai lançar." Sinal de que se não contentava em fazer do manifesto um frio documento, mas um instrumento de luta, no qual depositava grandes esperanças. Em resumo eles aspiravam reconstruir a educação. A repercussão do Manifesto foi imensa. Azevedo Amaral, então em plena evidência, teceu este comentário: "O mal-estar que oprime o País e se traduz em nostalgia de uma forma qualquer da organização política, sistematizada e expressa na definição de princípios constitucionais, decorre da
esterilidade intelectual do após revolução, desapontando a expectativa pública de diretrizes novas, que, mesmo quando fossem violentamente audaciosas, seriam muito mais aceitáveis e menos perigosas que a estagnação de um país revolucionado, isto é, a posição insustentável de uma nação que rompe com o passado e fica perplexa entre ruínas e um futuro para o qual não se atreve a caminhar."
Observou Herrnes Lima ser "puro Anísio a espinha dorsal ideológica do Manifesto". Sem dúvida, ele estava presente, e seria peça fundamental na sua aplicação. Ao escrever-lhe a Introdução, que precedeu a publicação em livro, Fernando de Azevedo freqüentemente ouviu as opiniões de Anísio. Da correspondência então trocada, retiro este trecho de Fernando de Azevedo: "Os seus reparos sobre um dos capítulos da Introdução ao Manifesto, achei-os tão justos que resolvi desenvolver o meu pensamento, para o esclarecer melhor, em dois parágrafos novos, conforme a sua sugestão. V. interpretou com fidelidade o meu ponto de vista a que a citação da célebre frase de Pascal podia de fato emprestar uma interpretação diferente." E após breve digressão sobre a ciência e as invenções a serviço do homem, continuava: "Se é verdade que é preciso fazer, 'o homem tão grande como a obra que ele conseguiu criar' se esta é a missão dos educadores , não é menos certo que existe um conflito entre a civilização material e a sua mentalidade, presa ainda ao mundo sensível, confuso e místico de preconceitos, crenças e ideais em que ela se formou. A massa, como sempre afetiva e instintiva, deixa-se governar mais pelos sentimentos do que pelas idéias. O que nos falta não é o pensamento claro de uma elite, capaz de Ihe transmitir um ideal novo, em cuja substância vivam as forças que elabora a nova civilização?"
Foi realmente grande a repercussão do Manifesto, rapidamente transformado em divisor de águas no mundo dos educadores, separado em progressistas e conservadores. Na verdade tornara-se uma bandeira e Fernando de Azevedo, pondo a causa acima de tudo, via-o como um ponto de aglutinação. "Quando falo nesse manifesto escreveu já me esqueço que fui eu quem o escreveu. Ele é obra impessoal. Havia de ter, como teve, um redator. Mas nele se escreveram um corpo de doutrina, 'idéias e aspirações comuns', que nos permitem, a mim como a cada um dos outros signatários, falar dele 'objetivamente."' E para ele ninguém mais capaz de empunhar do que Anísio: "A bandeira não é de quem a teceu, mas de quem a honra e de quem a conquistou. De todos nós, portanto. A sua mão de chefe foi feita para empunhadura dessa bandeira: nós estaremos para defendê-la em toda a parte em que se realize obra à sua sombra e sob a sua inspiração." Seria luta sem quartel e dela não demorou Anísio a se tornar o grande Líder, e por isso mesmo a grande vítima. "É preciso que a sua administração seja coroada de um êxito completo. V. o merece. E ninguém o merece mais do que você, pela penetração da sua inteligência, pela largueza de sua visão,
pela fidalguia de seus sentimentos." Opinião lisonjeira, que não demorou em se generalizar. Modesto, despretensioso, sem outra ambição senão a de servir à educação, Anísio se fizera naturalmente o Líder da cruzada.
Mais ou menos por essa ocasião publicou ele a Educação progressiva, possivelmente a síntese do pensamento que o orientaria no campo da filosofia da educação. Contemporânea do Manifesto, Monteiro Lobato reuniu os dois documentos neste comentário enviado a Anísio: "Comecei a ler o Manifesto. Comecei a não entender, e não ver ali o que desejava ver. Larguei-o. Pus-me a pensar- quem sabe está nalgum livro de Anísio o que não acho aqui - e lembrei-me de um livro sobre a educação progressiva, que me mandaste e que se extraviou no caos que é a minha mesa. Pus-me a procurá-lo, achei-o. E cá estou, Anísio, depois de lidas algumas páginas apenas, a procurar dar berros de entusiasmo, por essa coisa maravilhosa que é a tua inteligência lapidada pelos Deways e Kilpatricks!" E acrescentava com incontido entusiasmo: "Eureca! Eureca! Você é o lider, Anísio! Você é que há de moldar o plano educacional brasileiro. Só você tem a inteligência bastante clara e aguda para ver dentro do cipoal de coisas engolidas e não digeridas pelos nossos pedagogos reformadores... Eles não conhecem, senão de nomes, aqueles píncaros (Deweys & Co.) por cima dos quais você andou e donde pode descortinar a verdade moderna. Só você, que aperfeiçou a visão e teve o supremo deslumbramento, pode, neste País, falar de educação." Podia parecer exagero peculiar a Lobato. Contudo, dificilmente alguém deixaria de vibrar ante aquela inteligência sutil, penetrante e que tudo iluminava, emitindo conceito aos quais emprestava claridade invulgar. Na palavra de Anísio, tudo se tornava claro, e, portanto, fácil.
O fascínio de Fernando de Azevedo pela "educação progressiva" não era menor que o de Lobato: "Ao terminar a leitura de seus ensaios sobre a educação escreveu ele a Anísio lembrei-me de umas palavras em que Alfred de Vigny se retratava, sob traços do Imperador Juliano. Fui procurá-las. São estas: 'N'as tu pas remarqué, Basile, que ce n'est qu'avec effort qu'il descend, tandis que, chez le commun des hommes et même les plus habiles philosophes, l'effort est de se detacher d'enbas pour monter... Si jamais une pensée eut des ailes e'est assurement la sienne'. O seu pensamento é desses raros que têm asas, e é evidentemente com esforço que V. desce, enquanto no comum dos homens o esforço é de desprender-se de baixo para subir..." Para os que conviveram com Anísio e dele conheceram a veloz ascensão da inteligência, em constante debate na busca do aprimoramento, a observação é perfeita. E Azevedo continuava: "É sempre com grande facilidade que V. sobe alto e consegue plainar acima das teorias e doutrinas de que veio e se desprendeu para voltar a elas freqüentemente, mas nunca para ficar nelas. Esta facilidade em subir, quanto fala ou escreve, essa
flexibilidade e liberdade de pensamento que não traz chumbo nas asas, essa rapidez e segurança de raciocínio, largo e tranqüilo como o vôo dos grandes pássaros, são qualidades que denunciam a sua organização de pensador e filósofo da educação." Não havia como negar - Anísio tornara-se um líder. É curioso que ao falar das distrações, que Ihe eram freqüentes, costumasse confessar: "Quando monto na asa de um pensamento, de uma idéia, eu vôo nessa idéia como se a idéia fosse uma ave e tudo o mais se apaga." E voava alto.
Também de Hermes Lima, que permanecia em São Paulo, não faltou caloroso elogio: "O volume - escreveu ele a Anísio é na verdade excelente. Tem a meu ver, para começar, a virtude de esclarecer um problema que, em geral, anda por aqui, por aí, por esses Brasis, obscuro, mal sabido: o problema da nova educação, da escola para os novos tempos, para a civilização em crise e, sempre, em mudança. A obscuridade era, aliás, compreensível. Na crise da escola reflete-se a crise geral. Dar sentido à escola é dar sentido, relativo no tempo, é certo, à marcha da civilização." E após algumas considerações, a carta continuava:
"O espírito de inconformismo que anima todo o livro é nele uma qualidade, mais do que isso, uma virtude fundamental. O último capítulo particularmente me seduziu: esse seu e cada vez mais novo Dewey é deveras um homem capaz de mostrar coisas." Sinal de que tomava corpo uma nova filosofia da educação.
Ainda vivas as feridas de 1930, irrompeu a Revolução Constitucionalista de 1932, e durante quatro meses a guerra civil ameaçou dividir o País. Incorporado às forças de São Paulo, Hermes Lima, cessada a guerra, mandou a Anísio as suas impressões da luta: "Dela volto, meu caro, nem apaixonado, nem saudosista, mas apenas convencido de que os erros políticos da situação dominante que a ela nos arrastaram só poderão prevalecer a preço da desagregação do País. O Fernando (de Azevedo) Ihe falará de tudo com mais vagar e com o rigor objetivo tão característico do poder de observação que ele possui. Contento-me em assinalar-lhe aqui o fato, deveras importante, do aparecimento de uma consciência separatista em São Paulo." E para Hermes, o remédio para cicatrizar a ferida era fortalecerem e ampliarem as idéias do Manifesto dos Pioneiros: "Ora, o movimento educacional cujas linhas foram expostas no manifesto, hoje histórico e que nos congrega, repousa sobre a base da pátria comum brasileira. Lembrei, então, ao Fernando (de Azevedo) a conveniência de se lançar agora novo manifesto em que, se recordando sinteticamente os traços fundamentais da nossa ação educacional, erguêssemos um vibrante grito de alarme contra a falta de tato e o desconhecimento da realidade que em São Paulo, enfraquecendo o sentimento de brasilidade, nos atiraram à guerra civil e podem, com o tempo, nos levar à guerra da secessão." O separatismo inquietava-o, e ele dizia com ênfase: "Insisto por este manifesto como um dever patriótico que nos cabe cumprir, porque a verdade é que a inépcia tem
feito em São Paulo (inépcia do Governo Federal) mais pela desagregação do País do que a sua imaginação Ihe poderia dizer."
Não haveria outro manifesto. Para Fernando de Azevedo o importante era colocarem em prática as idéias dos "Pioneiros", e para isso aceitou dirigir a instrução pública em São Paulo. "Concordei afinal - participou ele a Anísio - depois de uma resistência mantida inflexivelmente desde a data de minha nomeação, a 27 de dezembro, em assumir a Direção da Instrução Pública em São Paulo, mas sem quaisquer compromissos de ordem política ou partidária e com a mais ampla autonomia de ação." Anísio seria o outro braço nessa luta pela educação. E Azevedo dizia-lhe confiante: "Trago os olhos e o pensamento voltados para a grande obra educacional que está V. realizando no Rio, e cujo espírito, que, na sua essência, é o da refomma de 1928, pretendo transferir para São Paulo, onde o Lourenço (Filho), aliás, já realizou iniciativas e empreendimentos de grande alcance nesse sentido." Sabia, porém, serem muitos os obstáculos. Por vezes sentira-se abatido, desanimado, prestes a submergir. "\/. já compreendeu que me refiro a obra educacional em que estamos empenhados, e pela qual eu estaria disposto a sacrificar minha própria vida". Nessas horas o idealista encontrava novas forças: "Sinto-me doente e fatigado, mas não hesitaria um instante em sacrificar todas as energias que ainda me restam, na reconstrução do pensamento educacional brasileiro". E desejoso de premunir o companheiro para as tormentas que antevia, acrescentava: "Não conseguimos ainda uma vitória sem esforços hercúleos e senão através de dificuldades imensas, num meio em que, compreendidos por poucos, somos furiosamente negados por uma grande parte de professores, cuja ignorância tem sido vilmente explorada pela má fé de alguns aventureiros e pela obstinação de outros. Escrevo-lhe agora, de irmão para irmão, como um combatente que aproveitasse um momento de repouso, na sua trincheira, para se desabafar com um companheiro de lutas, certo de que os revezes transitórios que sofremos ou possamos ainda sofrer nos trarão o sucesso e as conquistas definitivas."
Carta melancólica - não a aquece nenhuma ilusão. Para ele, entretanto, o essencial era sempre a união dos empenhados na "grande aventura". Desprendido, punha o êxito das idéias acima das vaidades. E, desvanecido, escrevia a Anísio: "Sinto cada vez maior necessidade de nos mantermos intransigentes. O radicalismo é próprio dos pequenos grupos. O abrandamento da sua irredutibilidade é prova de que o grupo se estendeu quantitativamente ou perdeu a consciência da necessidade de conservação..."
Ao longo de mais de quatro anos, Anísio não fez outra coisa senão tentar implantar as idéias do Manifesto dos Pioneiros. Alçado à Secretaria de Educação, não devia perder a oportunidade. Tanto mais que em São Paulo, também à frente da educação, Fernando de Azevedo representava base fundamental para a sonhada reconstrução educacional. A
Odorico Tavares, em 1952, Anísio recordou esses anos de trabalho. "A revolução produzira o necessário clima de renovação" - diria ele na conhecida entrevista. "Procurei durante perto de cinco anos elevar a educação à categoria do maior problema político brasileiro, dar-lhe base técnica e científica, fazê-la encarnar os ideais da República e da democracia, distribuí-la por todos na sua base elementar e aos mais capazes nos níveis secundários e superiores e inspirar-lhe o propósito de ser adequada, prática e eficiente, em vez de acadêmica, verbal e abstrata. Esta luta encerrou-se em 1936 com a onda reacionária que então submergiu o País."
A reforma era uma revolução, contrariando privilégios e interesses de toda a ordem. Natural suscitar um mar de reações. Ainda uma vez Anísio seria atacado pelos contrariados pelas suas reformas. Também Fernando Azevedo não seria poupado. Para este era o rescaldo das idéias do Manifesto: "Já vê você - escreveu ele a Anísio - que são indícios inelidíveis de uma reação conservadora a todo o transe, que tem por objetivo declarado a 'volta à tradição' (reação contra as reformas Lourenço Filho e Fernando de Azevedo) e, com fins não confessados, mas notórios, a reação pessoal contra o grupo do Manifesto." E, após considerações sobre o ensino religioso nas escolas, a carta prosseguia corajosamente: "Escreva-me longamente e não esmoreça na grande obra comum em que estamos empenhados e na qual é um dos chefes de mais largo descortínio, de mais alto prestígio e de maior capacidade de ação... Preparemo-nos para a luta." Aliás, Fernando de Azevedo relutara um pouco em se engajar oficialmente na batalha pela educação. Não havia muito, Anísio Ihe anunciava cheio de ânimo: "Quanto a mim dizia - estou embarcado e já não desembarco..." A resposta: "Também eu não hesitaria em embarcar se sentisse aqui, no leme, um pulso firme, e visse no mapa o roteiro seguro e no espírito de todos a disposição de se fazer ao largo, afrontando mar alto de uma vigorosa política de reconstrução. Mas, infelizmente, parece-me que, apesar de tudo, a tripulação hesita em levantar ferros, e, quando se dispõe a isto, é para sair costeando a praia, como arranhando a costa como caranguejos." Contudo, não demoraria a também se fazer ao mar. E desvanecido, ele escreveria a Anísio pouco depois: "É certo que já começamos a fazer obra comum e de unificação dos diversos sistemas escolares brasileiros. Não é esta uma obra nacional, de espírito nacional, no mais alto sentido da palavra?" E, desejoso de estimular o colega de sofrimento, dizia-lhe: "Mas, tudo há de passar e Ihe será feita a justiça, que a mim, parece-me, já começaram a fazer. Não cuide, porém, que são menores aqui as dificuldades com que venho lutando. O mar que navego é também tempestuoso e cheio de perigos... Já mais de uma vez tive de passar com ventos rijos, no meu barco frágil, momentos de inquietação para todos e que me foi necessário suportar com indiferença aparente, como se eu fosse estranho a todos os rumores de perigo..."
Não havia dúvida de que a luta seria longa e árdua. Anísio estava, porém, disposto a enfrentá-la, convicto de que no Distrito Federal situava-se o Waterloo dessa guerra. "Creio, escreveu ele a Fernando Azevedo, já Ihe haver dito que é minha impressão não ser possível travar, no Brasil, a batalha educacional, antes de vencermos a peleja do Distrito Federal." E para vencê-la Anísio buscou reunir os melhores na educação. Desejara inclusive a vinda de Fernando de Azevedo, para quem almejava o Ministério da Educação ou direção do Departarnento Nacional de Educação, se não a própria Secretaria de Educação.
Jamais alguém conseguira reunir equipe de tal porte, para a implantação de um programa educacional. O Instituto de Educação fora confiado a Lourenço Filho e Mário de Brito; o Instituto de Pesquisas Educacionais a Delgado de Carvalho; a Superintendência do Ensino Secundário a Joaquim Faria Góes; as Bibliotecas e o Cinema Educativo a Armando de Campos; a Educação Física à Professora Marieta Lois Williams; a Educação Musical ao Maestro Villa-Lobos; e na Superintendência do Ensino Elementar estavarn Alice Flexa Ribeiro, Calina Padilha, Paulo Maranhão, Felicidade de Moura Castro, Arteobela Frederico, Maria Vidigal, Laudimília Trotta e Zélia Braune. Certamente, nada havia de melhor no Brasil. E para reunir equipe de tão alto nível, Anísio se inspirava, principalmente, na solidariedade aos companheiros de ideal. Disso parecia orgulhar-se. E a Fernando de Azevedo ele diria com franqueza: "Não será necessário esclarecer que levo esse dever de solidariedade a todos que sejam verdadeiramente educadores amigo ou inimigo , só me considerando desobrigado dela perante os que por ignorância ou falta de idoneidade não podem merecer esse título. No Rio, neste momento, em que me coube, para mal dos meus pecados, o posto de comando oficial, tudo que podia fazer para agregar, reunir, consolidar, impessoalmente, os educadores brasileiros, tenho feito. No magistério e na administração tenho buscado criar uma consciência profissional comum, que desvie das pessoas para a profissão o dever de dedicação e de solidariedade. De todos os que chamei só falhou até hoje o Isaías."
Nada, porém, impedia que, ora mais, ora menos, prosseguisse a campanha contra o Secretário da Educação. Ferido, ele comunicou ao amigo: "Tão breve quanto possível hei de deixar a direção do ensino. Façamos votos para que o meu substituto seja mais feliz na obra de união e de fortalecimento comum." Certamente uma ilusão. Como deixar em meio a batalha travada ao lado de tantos companheiros? Não sem razão é esta observação de Hermes Lima: "Consagrou-se Anísio à edificação de sua obra educacional, abrasado pelo espirito de missão, missionário que foi a vida inteira." E como alicerce da construção, ali estava o Manifesto de 1932, pedra sobre a qual os pioneiros sonhavam edificar a nova Igreja da Educação. Realmente, a cada passo emergiam as idéias do documento, motivo inclusive de debates entre os Consti
tuintes de 1934, pois, custara evitar-se que algum dispositivo constitucional pusesse água abaixo quanto se fizera laboriosamente. Anísio a Fernando de Azevedo, em 6 de junho de 1934: "Terminado o mais aceso da luta, não sei se não nos devemos dar por satisfeitos, de tal modo, apesar das investidas da rotina e dos interesses, as idéias principais vieram a ficar vitoriosas... O capítulo da Constituição contém o máximo que podia, no momento, triunfar entre nós. Preferimos, entretanto, de público acentuar, em parte, o que perdemos, uma vez que uma campanha mesquinhíssima mais uma vez pretende ferir a renovação da educação nacional." E num tom de desalento, concluía: "Como ambiente geral, sinto, entretanto, que continuamos a lutar com a hostilidade, a indiferença ou a incompreensão. Sem dizer nada dos interesses feridos e dos não atendidos. O esforço de resistência chega a parecer-me que supera as minhas forças. Tenho, dia a dia, maior necessidade de repouso e de descanso." Embora não imaginasse, as forças eram-lhe inesgotáveis, refazendo-se a cada passo, para novas lutas e provações. Para ele, aliás, chegara a hora de um balanço sobre quanto se fizera bem como, o que deixou de ser realizado. Extraordinariamente lúcido, Anísio temia iludir-se. E para evitar o perigo pregava uma pausa na qual se analisasse imparcialmente o caminho percorrido.
Em junho de 1934, de viagem para a Bahia, ele, de bordo do "Flandria", voltou a escrever a Fernando de Azevedo: "Continuo a pensar que, na crise de cansaço em que nos encontramos, precisamos novamente de uma palavra de ordem estimuladora e justa. Primeiro, que balanceasse o que foi feito, com isenção, objetividade e coragem e depois indicasse o que havia ainda a fazer e o que ia fazer... Depois do Manifesto dos Pioneiros, essa nova declaração se impõe. Estamos a correr o risco de fazer crer e, o que é pior, também crermos nós mesmos que nada foi feito ainda...Escrevo de coração para coração. Ando a sentir tudo isso. E quero dar o meu afetivo e franco alarma"
Não há noticia do resultado desse brado de alarma, que traduzia decepção e desânimo. Nessas horas Fernando de Azevedo tinha sempre alguma palavra de estímulo, como a desta carta, de julho de 1935: "Vi e observei tudo com olhos sem nervos e o coração sem paixões. Por isto falei-lhe com toda a franqueza e com aquela solidariedade que V. conhece e que é sempre minha nas horas incertas... O que se passa todos os dias não importa. E preciso apanhar o que fica através do que passa. E o que ficará de V já é grande demais para V se deter no que é transitório".
Como sempre, Anísio não demorou em retomar o trabalho. Agora, como cumeeira do edifício, idealizava criar a Universidade do Distrito Federal. Universidade que fosse realmente uma Universidade, tal como concebia no plano mais alto da educação, e não uma contratação.
As eleições, para governador, de Armando Sales, em São Paulo, e Pedro Ernesto, no Distrito Federal, abriram caminho para as universi
dades estaduais. Anísio pôs mãos à obra. Era a oportunidade, não para transplantar a educação, mas para criar uma educação verdadeiramente nacional, adaptada a nossas condições, aos nossos hábitos e às nossas necessidades. Péricles Madureira de Pinho, intimo do pensamento de Anísio, daria este depoimento: "A concepção de uma Universidade brasileira nossa, produto da comunidade posta a seu serviço, ninguém a teve mais nítida do que o mestre Anísio. Não queria ele a Universidade como simples elaboradora de comentário e exegese do conhecimento existente. Defendia a grande renovação da Universidade como centro de "busca da verdade, de investigação e pesquisa." Era idéia arraigada idêntica concepção: "Quando se fala que a Universidade deve passar à pesquisa não significa deva haver um acréscimo, isto é, que lhe devamos anexar mais tarefa, e ela viraria Universidade de pesquisa. A Universidade será de pesquisa quando passar a formular a cultura que vai ensinar. A cultura humana tem de ser elaborada para ser ensinada."
Para uma grande obra era fundamental uma figura exponencial: Anísio nomeou Afrânio Peixoto, Reitor da nova Universidade. Desde que se conheceram fora crescente a amizade e a admiração de Afrânio pelo conterrâneo. Afeto que "sublinhava com um gesto de carinho reverente: saudava-o, a cada encontro, com um ósculo na face - maneira que Ihe pareceu suprema de expressar o seu apreço inexcedível''. Notou Hermes Lima que Afrânio "trazia para a Universidade o prestigio do seu nome aureolado pelo saber, pela consagração literária, pela dignidade de uma vida toda dedicada ao ensino." Em verdade, nenhum nome pairava mais alto na vida cultural do Brasil. E a tudo isso somava-se o entusiasmo do educador. Fundada em abril de 1935, Anísio, na aula inaugural, proclamou não somente os encargos da Universidade, mas também os descaminhos que haviam nos levado aos diplomas universitários honoríficos. E indagava em certo momento: "Haverá por acaso, demasiado ensino superior no Brasil? Não. O que há são demasiadas escolas de certo tipo profissional, distribuindo anualmente diplomas em número maior que o necessário e o possível, no momento, de consumir." Sabia-se ser a expressão da verdade. Nítidos e definidos eram para Anísio encargos da Universidade, e ele os enunciou na aula inaugural da abertura dos cursos:
"A função da Universidade é uma função única e exclusiva. Não se trata somente de difundir conhecimentos. O livro também os difunde. Não se trata somente de conservar a experiência humana. O livro também a conserva. Não se trata somente de preparar práticos ou profissionais, de ofícios ou de artes. A aprendizagem direta os prepara, ou, em último caso, escolas muito mais singelas do que universidades."
Inquieto, Anísio não deixava os assuntos dormirem. A Universidade não fugiu à regra: Afrânio Peixoto, a exemplo da Universidade de São Paulo, viajou em busca de professores. Em carta da Europa, dizia: "U
niversidade é pesquisa, mas é primeiro, e primeiramente, ensino. Pesquisa só depois de iniciado o ensino. Portanto, para começar, o professor, o aluno, o ensino. Para a evidência da utilidade pública, será mesmo indispensável começar por aí." E para ele, dos professores possíveis, os melhores teriam sido os alemães, judeus, expulsos pelo nazismo, não já terem sido recrutados pela Inglaterra, Suíça e Estados Unidos. Ficavam-nos os franceses, certamente mais facilmente entendidos pelos alunos, por causa da língua. E para selecioná-los, conversá-los e contratá-los, teve Afrânio a inestimável ajuda do seu amigo Georges Dumas, notável figura da cultura francesa, amigo do Brasil e incansável na catequese dos colegas. Afrânio Peixoto comunicou a Anísio: "O Dr. Georges Dumas anda pelos Ministérios e pelas Faculdades e instituições sábias a proclamar que o Reitor da Universidade do Distrito Federal, que se dirigia à França, confiante e confiado, não podia ir senão com as mãos cheias de dons. E tudo se fará do bom e do melhor meio, dando a França quase tudo." Realmente era um achado. A França pagaria a todos integralmente, ao passo que o Brasil dispenderia apenas pequena parcela. Afrânio escolheu o que havia de melhor. Para a Faculdade de Ciências viriam Maurice Janet, Eugene Block, Leray Marchand, Bovat, Henri Cardot, Millot, todos renomados professores nas suas especialidades. Para a Faculdade de Letras não eram menos ilustres os professores contratados: E. Brehier e Henri Hauser vinham de Sorbonne; C. Blondel, de Estrasburgo; Bourcier, de Montpellier, e como consagradas estrelas da cultura, Garric e Deffontaines. De modo geral era a nata das Universidades da França. Valia por uma transfusão de cultura. "O que esses mestres franceses trouxeram da Europa para a renovação da cultura brasileira escreveu Gilberto Freyre - através daquela universidade fecundamente experimental, importa noutro corajoso serviço prestado por Anísio Teixeira ao nosso País. Pois sem tradição universitária, não era possível que se improvisasse entre nós universidade valendo-se os organizadores do sistema universitário brasileiro apenas de bons professores, dos chamados de humanidades vindos do ensino secundário para o universitário; ou de simples especialistas nisto ou naquilo, recrutados de escolas superiores, apenas profissionais para cátedras que devessem ser verdadeiramente universitárias." Contudo, pelos ciúmes suscitados, foram muitos os problemas causados pela convocação de professores estrangeiros.
Como Ihe era próprio nessas ocasiões, Afrânio vibrava pelo êxito alcançado: o educador transbordava de contentamento. Dele é este expressivo fim de carta para Anísio: "No dia 6 de julho dizia embarca em Marselha, no Alsina, o Dr. Georges Dumas, cidadão carioca Professor da Sorbonne, de Psicologia, autor do monumental tratado, meu amigo, meu grande amigo, que agora fez tudo por mim, por nós, prestando-me imensos serviços. Procure-o, converse com ele, ele dirá tudo isto e mais ainda por mim. Ouça-o, agrade-o. Faça-lhe festas. Leve-o
ao Garoto do Mercado. À ABE. Ao Instituto de Educação. Já é Grande Oficial do Cruzeiro não poderia o nosso Pedro Ernesto pedir para ele a Grande Cruz?... Meu Anísio, agradeça-lhe por mim, por nós, com agrado, que bem merece, dedicadíssimo à nossa vitória! E agora? Agora um abraço. Excelsior! Seu, todo seu, Afrânio". A carta era um Tratado de Amizade. Nessas ocasiões Afrânio Peixoto mostrava-se incomparável.
Tudo seria, porém, em vão. O Brasil já se dividiria irremediavelmente em comunistas e fascistas. E para estes, quem não era integralista era irrecorrivelmente comunista. Anísio, liberal infenso a todas as violências, não tinha como se libertar da pecha do comunista. E uma campanha pertinaz envolveu implacavelmente tudo quanto ele realizava. Escolas, Faculdades, Universidades, tudo seria maculado pela calúnia alimentada, e ampliada por quantos guardavam algum ressentimento das reformas implantadas ao longo de quase cinco anos. Era um terrível ajuste de contas promovido, principalmente pelos integralistas, largamente infiltrados nos círculos militares e intelectuais. Por mais que se mantivesse alheio ao conflito político, Anísio acabou compreendendo ser incômodo auxiliar para o Governo, e oneroso companheiro para os amigos, principalmente após o levante comunista de novembro de 1935. Daí por diante a verdade não teve mais nada com o Brasil: um ódio mesquinho se derramou por todo o País.
O levante comunista impossibilitou a permanência de Anísio na Secretaria. A luta, entre a escola pública e a escola particular, que Anísio tinha, em grande parte, como confessional, deslocou-se para o campo político, e os seus adversários insistiam em dizê-lo simpático aos comunistas. Anísio resolveu pedir demissão, e o fez com veemência igual à agressão que 0 atingia: "Renovo a declaração, porque não me é possível aceitar agora a minha exoneração sem a ressalva de que ela não envolve, de modo algum, a confissão, que se poderia supor implícita, de participação, por qualquer modo, nos últimos movimentos de insurreição ocorridos no País. Não sendo político, e sim educador, sou, por doutrina, adverso a movimentos de violência, cuja eficiência contesto e sempre contestei. Toda a minha obra, de pensamento e de ação, aí está para ser examinada..." Pedro Ernesto confirmou a posição do auxiliar: "Dou o meu testemunho - respondeu ele a Anísio da veracidade de quanto afirma em sua carta, pois do nosso convívio pude perceber que o Secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal foi sempre adverso aos movimentos de violência e foi sempre um apaixonado apologista da verdadeira democracia."
No ambiente que se criara, a demissão fora inevitável, e Anísio contou com a solidariedade de numerosos colaboradores. Afrânio Peixoto, Carneiro Leão, Roberto Marinho de Azevedo, Gustavo Lesa, Mário de Brito, Paulo de Andrade Ribeiro e Adroaldo Junqueira Ayres foram
dos primeiros a protestar contra a iniqüidade. Calorosos, eles saíram a campo:
"Nós, abaixo firmados, colaboradores do Dr. Anísio Spínola Teixeira nos serviços de Educação do Distrito Federal, onde prestou, em quatro anos, maiores benefícios à causa escolar do que qualquer outro brasileiro em sua existência, vimos afirmar nossa surpresa ao ato que o afastou daquela administração.
Espontaneamente demissionários, temos a hombridade de declarar nossa inabalável convicção, haurida em testemunho quotidiano, que o Dr. Anísio Teixeira se manteve absolutamente alheio a qualquer ideologia política subversiva da ordem constitucional, exclusivamente votado à cultura nacional, pela educação e só com a educação."
Aos que conviviam com o demissionário e Ihe conheciam os sentimentos, a total desambição, que corria parelha com a paixão do missionário, era inaceitável a campanha deturpando-lhe idéias e objetivos. Escreveu Afrânio Peixoto que raio não cai em pau deitado. Anísio era porém, alta, frondosa e florida árvore, e isso explica a insistência com que os raios o atingiam.
Nós, seus amigos, nunca nos conformamos com os ataques desfechados. Conhecíamos-lhe a quase candura, a franqueza e também a bravura com que debatia os problemas. Inicialmente, passara do catolicismo ultramontano para o liberalismo, e haviam-no acusado de "americanizar" a educação. Agora o apontavam como comunista, embora o marxismo jamais houvesse pairado no seu espírito. E durante décadas não houve como libertá-lo daquela pecha. Em 1936, ele escrevera a um amigo, dando conta do que ia pelo País: "não se pensa, cheira-se. Agora, tudo Ihe cheira comunismo". Na verdade equívoco pelo qual pagaria até o fim da vida. Escreveu Edson Nery da Fonseca, por algum tempo da amizade intelectual de Anísio, que tal equívoco fora "miseravelmente explorado pelos interesses criados em torno de colégios particulares: interesses defendidos por uma parte do clero e até por alguns membros da hierarquia eclesiástica". Era difícil aceitar a acusação. Tanto mais que "nunca houve no Brasil observou o educador Lauro 0. Lima - maior americanista em matéria de educação". O que não impediu fosse "ferozmente combatido, terminando por ser considerado esquerdista, à falta de melhor argumento para combatê-lo". Ele, que americanizara o pensamento brasileiro em matéria de educação, principalmente difundindo as idéias de John Dewey, violentamente combatido pelos educadores soviéticos. De N.K. Goncharov é esta afirmação no órgão oficial da Academia de Ciências Pedagógicas de Moscou e lembrada pelo próprio Anísio: "Os educadores reacionários esforçam-se nos Estados Unidos por demonstrar lealdade aos donos de Wall Street, formulando os fundamentos teóricos do sistema norte-americano de educação. Solto no palco está o bisão endurecido John Dewey, com 90 anos de idade, ex-catedrático da Universidade de Colúmbia".
Devoto de Dewey, Anísio via-se acusado de comunista. De fato ele seria um espírito em permanente busca da verdade, e do seu aprimoramento. Ênio Silveira, que com ele conviveu na Editora Nacional, deu este testemunho: "Anísio era, antes de mais nada, um antidogmático, um cético altamente especulativo em todos os terrenos de atuação mental. Tanto, que muitas vezes o vi entregue ao exercício de armar profundas criticas às próprias concepções pessoais que a reflexão e a prática o haviam levado a estabelecer sobre teorias pedagógicas e sua aplicação à realidade brasileira." No fundo, um eterno insatisfeito.
Houvesse de situá-lo na vertente de alguma cultura, e ele deveria ser tido como um grego. Dizia Gilberto Amado representar uma rua de Paris a continuação de um rio nascido na Grécia. Certamente, Anísio subscreveria esse pensamento. Quando aí esteve, em 1961, a sua imaginação recuara milênios, num fascínio incontido. Fascínio do qual conservo expansões feitas na intimidade, e testemunhos do deslumbramento suscitado pelo mundo helênico.
A Péricles Madureira de Pinho, amigo fraterno, ele escreveu um cartão mandado da Acrópole: "É preciso vir aqui para se sentir quanto a beleza é algo de religioso. Não se tem vontade de deixar a colina inigualável. Aos sessenta anos perde-se toda a espontaneidade. Mas, se alguma vez o homem conseguiu criar um ambiente de serena exaltação, esse foi o templo desses eternamente surpreendentes gregos". E extasiado ele continuava a evocação: "Andei entre as suas ruínas hoje mais de três horas e custou-me deixar a colina ou soufle l'espnt." O sopro do qual nasceu a cultura do Ocidente, e da qual era ele uma floração.
Mais terno e emocionante é o cartão que, dias depois de pisar o Paternon, mandou, de Paris, ao filho José Maurício: "Ai vai o Partenon. Será que V. sabe o que isto é? Todos nascemos ai juntinho está o lugar onde Sócrates ensinava. O lugar é tão sagrado que São Paulo não teve coragem de pregar na Acrópole, fazendo sua célebre oração aos atenienses de um penhasco ao lado". Era o deslumbramento do humanista.
Transcorridos milênios sobre o Partenon, Anísio, aconselhado pelos amigos, deixava o Rio ameaçado por fanáticos inimigos da Liberdade. Novamente ele buscou o sertão, onde se sentia em segurança. Cerca de dois anos viveu então na fazenda Gurutuba, próxima de Caetité, e residência da irmã Evangelina, casada com o Cel. Francisco Pires de Oliveira. E de bom ânimo ele se dispôs a suportar aqueles tempos de injustiça. Que fazer senão esperar passar a tormenta?
Lobato não mais esqueceria esses dias de opróbrio. Passados alguns anos, ele escreveria a Anísio: "Lembro-me de quando te vi no Rio de Janeiro, traqué pela polícia, escondido pelos amigos como um grande criminosoe naquela ocasião também chorei. To whom the bells toll?
Todos estamos implicitamente perseguidos, foragidos, escondidos com você, enquanto lá fora o tumor Vargas sorria com o seu charuto e en
tregava a Cultura Brasileira aos percevejos da Cúria Romana." Era a confirmação do que dissera a um amigo, Flávio de Campos, em fevereiro de 1938: " Num País em que essa maravilha de inteligência e caráter que se chama Anísio Teixeira vive escondido, só há um protesto dos que têm voz: o silêncio."
Nessas horas, perseguido, Anísio se integrava na simplicidade da vida sertaneja, para enfrentar o infortúnio. "No fundo deste sertão escreveu a Lobato - o silêncio e o deserto nos tornam humildes e pequenos." Encantavam-no as coisas simples. Familiarizara-se até com um alegre casal de Lavandeiras de Nossa Senhora, o pequeno pássaro de que fala Lobato, e que por algum tempo veio cantar-lhe à janela naquelas frias manhãs sertanejas. Depois, criados os filhos no ninho próximo à casa, elas se foram com as águas. "Não saberiam perguntou Anísio que o homem é o mais terrível dos animais ferozes?" Distraiam-no as seriemas e perdizes, únicos habitantes das planícies sem fim. E convidando Lobato a visitá-lo, dizia-lhe: "a cidadezinha morta de Caetité vive rodeada de uns gerais que são tudo que há de mais verde, mais largo e mais alegre..." A solidão fazia-o romântico naqueles dias de abandono: "Mato o tempo com distrações cro-magnônicas: caça e vaquejadas. E à noite, colo o ouvido ao éter (rádio) e ouço as confusões do período da estupidez. Depois enterro-me nos meus livros e sonho com o futuro... Tenho três mundos, pois, com que me divertir. O de ontem, o de hoje e o de amanhã. Sou assim feliz como um pinto. Porque, dos três, se o de amanhã é o melhor é também possível, o pior o de hoje, só o tenho pelo éter (rádio), e o de ontem, afinal suportável, é o que vivo corporalmente". E ao dar conta do que Ihe ocorria, informara ao amigo: "Sou, hoje, lenhador, vendo madeiras e dormentes à estrada de ferro. Comprei umas terras e creio que retornarei ao destino rural dos meus bisavós. E um esforço para me primitivizar que não deixa de ter os seus encantos". Na verdade, buscava iludir-se. Como conformar-se o sonhador com o destino que Ihe interrompera a caminhada? E deixando entrever a inquietação, confessava com certa amargura: "O cabritozinho do espirito ainda pula e esperneia e se bate - tão habituado ficou com a sua vida de livros, de complexidades e de inquietações -, mas virá, por fim, a habituar-se à planície e à sóbria poupada e sumaríssima vida intelectual de um criador de bois e vendedor de lenha". Era a teimosia da ilusão. Os amigos é que se não enganavam. E como se falasse por todos nós, Homero Pires deixou vazar a revolta que vivíamos: "Se o Brasil fosse uma nação", escreveu ele a Anísio . "O seu caso seria impossível. Você, acoitado, refugiado nos sertões, por ter feito a obra mais benemérita de educação no Brasil". Era o inconcebível. Havendo permanecido no Rio, Hermes não demorara em ser preso. Soltaram-no após mais de um ano, sem jamais Ihe dizerem porque fora preso. Cada inquisição tem as suas vitimas.
Mais ou menos por esse tempo, leu Anísio a "História da Educação de Afrânio Peixoto, por este enviado para Caetité. O agradecimento é luminoso - o sofrimento decantara o espirito do educador. Nem é demais reproduzir-lhe largos trechos. "Querido Afrânio: li a história da educação, no meu sossego da roça, em um dia. E sai da leitura com essa vertigem de quem assiste, em algumas horas, todo o espetáculo do pensamento humano... É pena que não sejam mais extensos esses seus luminosos ''ins" aquelas sínteses da luminosa clareza com que você pontua a exposição. No dia em que se fizer o capítulo do Brasil por outro que não Afrânio Peixoto, tem-se que dar a esse educador o lugar que você dá a Montaigne. Não foi um educador, foi uma educação". Ao falar do autor dos Ensaios, Afrânio escrevera: "Montaigne foi, entretanto, mais que um educador, foi uma educação, e, sob este aspecto, em escala bem menor, só se lhe podem comparar duas outras educações: a de John Stuart Mill e, um pouco, a do nosso Rui Barbosa". Sem favor, a eles se reúne Anísio Teixeira, também ele mais do que um educador, pois foi uma educação. A espontaneidade do missivista
não fazia menor os seus ensinamentos. E a carta continuava:
"Você fez história da civilização fazendo história da educação, e esse é o seu grande elogio, a despeito dos impagáveis críticos nacionais: e se em alguma coisa o livro poderá melhorar, é na acentuação desse aspecto. Por exemplo, tornar, se é que é possível, ainda mais funda a linha de eficácia, no curso da civilização, da educação não somente pensada mas realizada nos povos. O caso do "milagre grego" e sobretudo do "milagre judaico" são exemplos marcantes desse tipo de educação realizada e não apenas pensada. O caso do cristianismo também, como efeito fundamental de sua organização educacional. Creio que vê onde quero chegar. Mostrar ainda mais vincadamente a educação como causa e fautora da civilização, quando a educação é realizada". O exílio exaltara a clareza e o vigor do pensamento. A carta flui como breve aula e não falta a paixão do educador, e dela não é demasia lembrarmos este trecho: "Mas, o aspecto a salientar seria, entre os antigos, a educação do templo, do altar e da guerra, depois a educação do coração e do amor das grandes religiões universais, 0 "milagre" de Buda, de Jesus, de Maomé, as deturpações e acréscimos dessas doutrinas e a educação resultante, a Idade Média, o Renascimento, a Idade Moderna e Contemporânea, enfim, com as educações resultantes de suas idéias e condições".
Se a inteligência continuava brilhante, a alma trazia uma ponta de amargura, que desponta neste final: "Acabara de ler a História da Educação, quando me chegou aquele seu santo breviário do riso. Falta um capítulo a Swift, no breviário, o da educação no Brasil, da História da Educação. Não lhe parece? Mas, será antes amargo, doloroso, e tremendamente triste..." Tinha razão. E, no fundo, a história se confundiria com os próprios sofrimentos do missivista.
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As confidências minoravam as angústias do exilado. E de Afrânio Peixoto vinha sempre uma palavra de amizade, e de conforto. Sem esquecer os tempos idos, Anísio acrescentara: "Um reparo apenas. O autor sendo quem é, não pode dizer, na página 259, o maior ato do Diretor de Instrução a que se refere ali: nomear Afrânio Peixoto, Reitor da Universidade do Distrito Federal, sob cuja inspiração ela surgiu e se constituiu e contratou professores e ia viver..." A Universidade, entretanto, morreria. E Anísio assim resumiria os anos em que dirigira a educação no Distrito Federal: "Procurei durante perto de cinco anos elevar a educação à categoria do maior problema político brasileiro, dar-lhe base técnica e científica, fazê-la encarnar os ideais da república e da democracia, distribuí-la por todos na sua base elementar e aos mais capazes nos níveis secundários e superiores, e inspirar-lhe o propósito de ser adequada, prática e eficiente, em vez de acadêmica, verbal e abstrata. Esta luta encerrou-se em 1936 com a onda reacionária que então submergiu o País. Os nossos insignificantes progressos democráticos pareceram perigosos, e um obscurantismo que se julgaria impossível entre nós determinou um retorno de 180 graus na roda do leme nacional." Mais um ciclo de sete anos fechara-se na vida de Anísio.
A tranqüila solidão do interior foi oportunidade para avaliar a estrada duramente percorrida. Publicou então "Educação para a Democracia", síntese do trabalho desenvolvido no Distrito Federal. "É um livro vivido dia a dia, porque fundamenta e expõe uma obra ainda mais vivida, intensa e afanosa." De fato, "o jornal de um trabalhador desassombrado de quatro anos..." Escrever era a maneira de perpetuar. Quando o lutador retornaria à arena?
Fernando de Azevedo, lamentando estivesse Anísio afastado do convívio dos amigos, dizia-lhe, talvez para o animar: "Nós, geralmente, nunca vemos com bastante nitidez os homens e as coisas no tumulto das lutas políticas e no atropelo da administração, e raramente se consegue ser observador objetivo dos fatos em que se é ator apaixonado. De minha parte, reconheço terem-se sido utilíssimas essas voltas periódicas à solidão, que é, para homens como nós, a oportunidade feliz para esses "encontros consigo mesmo", em que o indivíduo, dando o balanço às suas forças e aos resultados de seu trabalho, se habilita melhor à disciplina de sua vontade e de suas energias para a vida de ação." Naquela hora de angústia, as observações caíam como azeite derramado sobre um mar encapelado. Em seguida repetia a estrofe de Lamartine a d'Orsay: J'ai vecu pour la foule, je veux dormir seul." Lograria Anísio sobrepor-se às injustiças e amar a solidão? Aos poucos, em meio ao isolamento do sertão, o asceta se humanizava, tornando-se compreensivo diante do mundo. A Afrânio Peixoto, que lhe escrevera falando daqueles dias agitados, ele respondera com suavidade: "Sarado de ilusões, com os olhos renovados para o quotidiano", perdi a minha
dureza ascética e sou hoje um homem enternecido diante da vida. Chaque homme porte en soi la forme entiére de l'humaine condition. Esta palavra de Montaigne me tem servido para reduzir a minha mágoa a seus limites exatos e fugir de insistir na sua insignificância. E por isso mesmo a me abrir os olhos para o espetáculo dos outros homens a que me liga um destino absolutamente comum e a que faltam, bem mais essencialmente, as consolações de viver." Na medida em que depunha as armas, o combatente adquiria nova visão da vida e dos homens. E, de algum modo agradecido, ele continuava: "Muito mais comblé do que méconnu eu me sinto, depois de tudo, o homem mais afagado da sorte que se poderia imaginar. Satisfazer-me esse estado de espírito, porque tinha horror de me tornar um desses espíritos aigris tão comuns em nosso rarefeito ambiente social." A conformidade pousara no espírito de Anísio. Havia, porém, mais alguma coisa para se sentir "o homem mais afagado da sorte": em breve Ihe nasceria um filho. Emocionado, dizia: "Reentregue à família de que me afastara o meu terrível noviciado de vida pública, esperando feliz e apreensivo a difícil fortuna de um filho, eu me descubro com aquela 'vida integral' de que v. fala..." Afagava a felicidade reencontrada. E dizia devê-la aos inimigos: "Separado de ilusões e de febre... o mundo talvez tenha perdido um fanático, mas ganhou um homem feliz. Se os nossos inimigos soubessem o bem que nos fazem... Sou hoje um homem que se pode entusiasmar sem se cegar, que pode dar sem se perder, que pode ver o extraordinário sem esquecer o quotidiano, e tudo isso devo aos meus amabilíssimos inimigos. Como é fácil amá-los das alturas onde eles me puseram..." Afinal era a vida com os seus altos e baixos, ilusões e realidades. Estas eram simples, e Anísio as vivia com alegria.
A Lobato ele não se esqueceu de comunicar o feliz acontecimento - era a sucessão das gerações, e novos Teixeira viriam continuar a caminhada dos velhos Teixeira e Spínola. "Devo hoje ir receber Emilinha na ponta do trilho mais próxima. Esteve na Bahia às voltas com o médico e o dentista. Avalie o que não me veio mandar esse ano de deserto! Um filho, nada menos que isso. E eu que sonhava sempre uma liberdade meio aventureira, meio romântica... As duas possíveis mãozinhas que vêm aí me enraízam... Sou árvore, Lobato, sou árvore... As cousas passarão por mim, mas já não poderei ir ao encontro delas... A vida nos domestica." E, mudado, Anísio pensava em "mergulhar no primitivismo sólido da terra."
Para acalmar o "cabritozinho do espírito", Anísio deixou surgir ao lado do criador de bois e vendedor de lenha um apaixonado tradutor de grandes obras. Afinal, era a maneira de carrear uma pedra para o futuro, consolo que sobrenadava em meio às decepções. Na ocasião, ele se imbuíra da idéia de que nada mais útil, para a formação de "uma mentalidade lúcida e crítica", do que a divulgação da História, nas suas linhas gerais, "em suas lições fundamentais, em sua filosofia." Escreveu
então a um amigo: "Humildemente já me atirei à tradução do Outline of History, de Wells. São 1.200 páginas quase milagrosas de clareza." O trabalho caminhara rápido, e ele comunicou a Lobato: "Terminei o Wells - o Outline e a impressão que tive ao terminar, foi a de ter roubado o leitor... Não calcula o arrependimento de não o ter deixado em suas mãos!... Às vezes, sonho que Você poderia corrigir. Mas, corrigir é pior do que traduzir... E o livro é uma tal visão global do mundo, uma tão estimulante apresentação do drama humano, que só Você, entre nós, a deveria reapresentar em português, aos nossos brasileiros. Não, traduzir é tão arte quanto escrever, e só escritores o devem fazer. E eu, positivamente, não sou escritor." Observação modesta e inexata, pois, nele, pela clareza da inteligência, o escritor era inseparável.
O sertão revigorara-o. "Sou todo brotos e disposição para o trabalho", informou a Lobato. Havia algum tempo ele se aproximara de Octales Marcondes Ferreira, a quem se devera haver salvo a malograda editora de Lobato, transformada numa das mais importantes editoras do País. Octales possuía o gênio do editor, e reuniu em torno dele, para o ajudar, inteligências como as de Monteiro Lobato, Anísio, Fernando de Azevedo e Henrique Cavalheiro, para lembrar apenas algumas. Para ele, Anísio era "um dos esteios da Companhia", e incentivou-lhe o sonho da tradução de livros fundamentais destinados a nutrir a cultura nacional. Em meio à solidão sertaneja, Anísio cercara-se de autores famosos Dewey, Russel, Wells, Lobato... Aos estrangeiros ele imaginava traduzir, e entre estes, no primeiro plano, estava The shape of things to come, de Wells, que tinha como um dos seus manuais. E enquanto aguardava The mansions of philosophy, de Durant, lia a sua História da Civilização. Verdadeiramente muito pouco para o espírito habituado às grandes aventuras das inteligências.
Também os amigos, vencidos os primeiros tempos, acreditavam chegada a hora dele retornar. Fernando de Azevedo escrevera-lhe sem rodeios: "Quero juntar o meu apelo que já Ihe foi feito, ao que me informaram amigos, para terminar o seu retiro voluntário. É preciso, e agora, oportuno, que V. volte às suas atividades, no jornalismo e na educação, no Rio ou em São Paulo. A sua longa permanência no interior, longe do grande centro, em que deixou tão profunda impressão do seu pensamento e de suas iniciativas admiráveis, não conseguiu apagar nem a lembrança de seus serviços, nem o reconhecimento de seus méritos excepcionais. Todos aguardavam a oportunidade de sua volta ao campo de ação e de lutas, em que ficamos em número tão reduzido e em que a sua ausência do Rio só contribuiu para uma apreciação mais justa de seus notáveis esforços pela solução dos problemas educacionais."
Anísio, entretanto, por demais escarmentado, devia ter como temeridade lançar-se ao alto mar da "grande aventura." E, em vez de retornar ao amargo e "terrível serviço público", associou-se aos irmãos Jaime e Nelson num empreendimento para a exploração e exportação de miné
rios. Depois de sonhar com altos vôos via-se chumbado à terra dos interesses comerciais.
Por algum tempo, ele permaneceria simples observador. E necessitando ganhar a vida, era comum encontrá-lo ao longo do cais, na Bahia, examinando montanhas de minério prestes a embarcar. Certamente não se desinteressara da vida política do País. O intervalo, embora doloroso, ou talvez por isso mesmo, permitira-lhe repensar o País, a educação, os seus problemas. Deflagrada a sucessão presidencial com as candidaturas de José Américo e Armando Salles, ele mandou a Hermes Lima longa carta, cheia de observações. Dizia a certa altura: "Somos, por ausência substancial de instrução - é preciso sempre lembrar que não tivemos nem ensino secundário, nem universitário um País sem moralidade de idéias, sem inteligência de conseqüências, com uma vida social sem lógica, sem ordenação, sem sentido ideológico. Esse aspecto se revela em nossa usual observação de que nada tem conseqüência no Brasil, e no espanto do estrangeiro ante o sentido diverso que os fatos e os atos têm aqui entre nós. Diverso do da Europa, do da América, de todos os países de civilização similar." E analisando as forças que, afinal, aglutinavam a sociedade em meio a essa inconsistência, dizia: "Se fosse só isso, porém, o Brasil não poderia durar. Qualquer cousa substitui essa falta essencial de moralidade e seriedade social. E essa qualquer cousa é a nossa doçura, a nossa bondade, o nosso conceito privado de moralidade. Somos o País da amizade pessoal. Substituímos a estrutura ideológica coletiva da sociedade, a moralidade de idéias, a moralidade do interesse geral por uma base afetiva e sentimental." O conceito era severo. Em seguida, indagava: "Como, pois, nessa sociedade, fazer qualquer coisa com idéias e por idéias? Como, pois, fazer o brasileiro compreender que as idéias tomadas a sério reformariam a vida? Como, pois, dar base racional à nossa extraordinária vida social de base puramente afetiva? E esse, meu caro Hermes, o problema em que me debato hoje. É essa a dificuldade que me põe extraordinariamente modesto nas minhas perspectivas de ação social no Brasil." A realidade esmagava o pensador. E alongando a vista sobre as perspectivas prenunciadas em meio à campanha, Anísio, antecipando-se ao que aconteceria, não escondia pessimismo: "Teremos de sofrer um pouco para fazer da democracia uma realidade, mas muito mais teremos de sofrer se, por desespero infantil, buscarmos qualquer das duas soluções desesperadas em um País como o nosso, de vida folgada e distâncias sociais quase nulas". A carta é de agosto de 1937. Três meses mais e Getúlio Vargas implantava a ditadura do Estado Novo. Contudo, restava uma ponta de otimismo, reflexo de idealismo: "Sinto ainda, dizia, a grande nobreza da aventura humana e acho que nesta parte do planeta que chamamos Nossa, essa aventura poderá tomar um matiz muito simpático e talvez importante. A nossa contribuição ao sentimento de fraternidade racial me parece particularmente marcada. E depois há qual
quer cousa de muito mais poderoso que nós é a nova geração. Devemos pensar e ajudar, se possível para que ela faça melhor do que nós." Sinal de continuar confiante na educação.
A presença do Estado Novo afastou qualquer possibilidade de Anísio retornar então a educação: o longo exílio amargurava-o. Deixara inclusive de escrever aos amigos, e esse estado de espirito perdurou até Ihe nascer a segunda filha, Ana Cristina, em janeiro de 1939. Em fevereiro ele comunicou a Fernando de Azevedo: "... vim procurar aqui na Bahia repouso e alívio para uma situação de espirito que já se ia tornando de certo modo difícil de tolerar. Não direi que a encontrei. Pelo contrário, os períodos mais longos de meditação antes me reaqueceram a consciência de uma crise que aí o trabalho não me deixara tomar conhecimento. Envolvido por uma onda de perplexidade e quase de irritação, não escrevi durante esse período a ninguém. Só outro dia retomei a minha correspondência." Ainda uma vez as emoções da paternidade sacudiam-no. E a carta prosseguia:
"Foi com efeito o nascimento a 30 de janeiro de uma segunda filha - a Ana Cristina - que me veio de certo modo curar. Colhido pelo dramazinho elementar mas forte do nascimento de uma filha, retomei os meus contatos com a vida e me senti mais apto a sofrer-lhe as terríveis imposições que ela me vem fazendo ultimamente. Durante todo esse longo tempo pensei fundamente em V., de que tive rápidas noticias pelo Octales... O meu silêncio foi muito mais um desses silêncios de íntima comunicação e solidariedade em que por vezes se deixam cair os amigos, mesmo na presença um do outro, do que de esquecimento ou distância. Agora, porém, que a chegada de uma filhinha vem de certo modo renovar-me na coragem, no dever de viver, apresso-me em Ihe vir pedir as noticias, e levar-lhe mais expressamente a certeza de uma solidariedade que nem por um momento Ihe faltou em toda essa longa ausência e em toda a sua dolorosa provação.
Os meus votos - votos de coração - são para que o seu espírito de tudo triunfe e saia ainda mais robusto, se possível, para a luta sem tréguas que representa o ideal de uma vida de serviço como o que Ihe empolgou. Há um preço definido a pagar pela vida. Mas esse custo da vida sobe a alturas astronômicas quando escolhemos para essa vida o ideal mais alto." Certamente, falando ao amigo, Anísio falava de si próprio. Quem mais do que ele pagara alto preço pelo ideal? E, voltando ao berço que o reanimara, concluía com ternura: "E se Ihe pode ajudar a V. o saber que um pobre diabo como eu redescobre motivos de entusiasmo nos elementares e sadios deveres da família, colhendo nos olhos espantados e cândidos de uma criancinha de quinze dias lições que já não encontrava em minha inteligência - aqui Ihe deixo essa humilde confissão..." Em meio às incompreensões e sofrimentos, Anísio reunia forças para a caminhada, na qual desejaria ter permanecido. Aos poucos, porém, a vida desviara-o, e ele não escondia certo sentimento
de culpa. "Sinto - escreveu mais ou menos por esse tempo - com efeito que vou sendo arrastado para setores completamente diversos dos em que batalhei e vivi até hoje. E que não resisto devidamente. Antes me deixo levar como se me agradasse a fuga que as circunstâncias me prepararam e me facilitaram." Não Ihe era grato esse distanciamento da "velha causa", cujo lugar via tomado por outras obrigações, outros deveres. Que Ihe restava, no campo das atividades da inteligência, senão as traduções? "O único contato diria ele a Fernando de Azevedo - que guardo com a nossa antiga profissão de fé é das traduções que tão pouco me satisfazem, por isso mesmo que não sou um escritor, mas antes um professor e, talvez, um homem de ação." Na realidade, era-o acima de tudo. Dizia o seu amigo Jaime Junqueira Ayres que ele tinha o braço ligado à inteligência, pois os seus pensamentos logo se transformavam em ação.
Foram anos de provação. Principalmente a guerra, e quanto representava para a civilização, punha negras nuvens no espirito de Anísio. "A destruição material imensa será o menos, dizia. O pior é a sementeira de ódio, é a deterioração humana que uma catástrofe desta natureza produz. Adeus jovialidade americana, adeus saúde mental americana, adeus delicados móveis morais, adeus tudo o que faz da civilização algo doce e calmo e pacifico..." O horizonte parecia-lhe cada vez mais negro, pois, a todas essas aflições, somava-se o processo contra Lobato por causa da campanha em favor do petróleo brasileiro. E diante do amigo perseguido Anísio evocava o Albatroz Cativo, de Baudelaire: "Exilé sur le sol au milieu de huees. Ses ailes de géant l'empechint de marcher."
Por mais que buscasse disfarçá-las, as mágoas de quando em quando afloravam. No inicio de 1941, afligira-o sobremodo o processo contra Lobato, por causa da campanha do petróleo. Angustiado, ele escreveu a Fernando de Azevedo: "Não costumo pedir aos homens nem justiça, nem generosidade, pela clara visão dos seus próprios interesses. Parece, contudo, que, isto, exatamente, é que Ihes é mais difícil darmos... Vivo hoje afastado de tudo e só de quando em quando o ruído assim de uma injustiça maior me chega aos ouvidos... Somo esses ruídos a todos os outros anteriores e confesso que vou com eles confirmando uma amarga filosofia a respeito do Brasil." Ruídos a que se acrescera o desligamento da Editora Nacional. Era uma rutura. "O desligamento que conclui com a Editora, que era a minha pequenina ponte para o mundo, chocou-me mais do que poderia imaginar."
Dia a dia era maior o isolamento. Pouco mais tarde não conteria esse desabafo, em carta para Fernando de Azevedo: "Ando ansioso por chegar até aí, pois, a despeito do meu poder de adaptação, vou sentindo o cansaço de uma vida sem estímulos intelectuais nem contatos inspiradores. E às vezes, diante do espantoso de nossa época, apanho-me humilhado pela condescendência com que me venho habituando a viver
aquém das suas tremendas responsabilidades." No fundo era o remorso do combatente, refugiado na atividade comercial.
Não pararam aí as amarguras. No início de 1944, faleceu D. Ana, e Anísio abriu o coração ferido: "Tenho a impressão que vamos morrendo com os nossos mortos. Eles partem levando-nos também um pouco e sinto, com a morte de Mamãe, que já não estou tão longe quanto por vezes a nossa inocente despreocupação de filhos nos fazia crer da grande viagem. Vinha ultimamente envelhecendo depressa, mas a perda de Mamãe me envelheceu de séculos. Já me sinto meio espectador de certo modo alheio à emocionante confusão da vida, como quem já vai tendo os olhos mais voltados para os que ficaram na estrada do que para os que prosseguem a viagem. Isto já é um pouco morrer..." E concluía com amargura: "Como se precisa de bravura para sofrer a vida".
Por algum tempo, até 1945, as atividades do homem de ação voltaram-se para a iniciativa privada, como comerciante e exportador. A guerra estimulava o negócio, e Anísio tornara-se próspero importador de material ferroviário e exportador de manganês. Não o desagradava de todo essa face do homem de ação. Observou Hermes Lima que ele o fizera "com o mesmo fervor e dedicação com que dirigia serviços de ensino." Ele próprio diria das atividades do comerciante: "Com uma filosofia que procura não distinguir pensamento de ação, achei a chamada vida prática tão sedutora quanto a chamada vida intelectual. Foi uma bela ocasião de demonstrar a mim mesmo que vencera, realmente, os dualismos entre pensamento e ação, trabalho manual e intelectual, corpo e espirito..."
Até 1946, estimulado pelo "dever de viver" encontrado nos olhos "espantados e cândidos" da filha recém-nascida, Anísio continuaria na faina prosaica do comerciante no rumo da prosperidade. Embora não o dissesse, evitando recriminações contra a vida e os homens, ele tinha nítida consciência de que representava estar confinado a atividades muito aquém da contribuição que podia dar. Testemunho das cicatrizes que Ihe marcavam a alma são estas palavras a Lobato quando das perseguições do Estado Novo. "Sei que somos fortes, escreveu-lhe Anísio, e que acidentes piores do que o sofrido por você nos deixam, aparentemente, sem mancha nem mossa... Mas, só aparentemente. Na realidade, uma prega se inscreve mais em nosso tecido da vida e perdemos um pouco de nossa elasticidade, elasticidade de que precisamos para reagir aos acidentes futuros..." Sim, aparentemente... No fundo o "exilado" sofria. Além dos problemas pessoais, o destino do mundo inquietava-o. O fascismo, o hitlerismo, a guerra, tudo contribuía para atormentar o espírito do liberal. Anísio a Fernando de Azevedo: "Para onde vamos? Sinto em mim algo da atitude que devia esmagar um romano que via seu império sucumbir ao assalto de forças mais novas e menos civilizadas. E depois da débâcle virão as conseqüências da débâcle, que são bem mais terríveis que o próprio desastre". E alguns
dias mais tarde: "Sou o menos determinista histórico que se pode ser - mas ando assombrado com a fraqueza misteriosa da consciência humana. Alguma profunda modificação se operou dentro dessa mesma consciência para que ela não reaja tão inexplicavelmente aos acontecimentos... Fica-se em dúvida se algum obscuro determinismo não preside na realidade a confusa agitação humana. Está certo que determinismo existe, mas a minha perplexidade é de referência à sua dirigibilidade. Por um lado a Alemanha nos fortalece a convicção de que a história pode ser fabricada voluntariamente. Por outro lado os aliados nos fazem crer no destino e na sua inevitabilidade..."
Além da família, as cartas dos amigos marcavam os poucos momentos de alegria. Afrânio Peixoto, que retornara havia pouco da América, era dos que melhor sabiam exorcizar o desalento. Anísio a Afrânio: "Aqui me chegou a sua lembrança magnífica da passagem pela América. É uma edição do pensamento de Dewey de pôr água na boca de um descrente, quanto mais de um devoto como eu desse profeta da democracia. Afrânio, Dewey, América... tudo isso junto me pôs nos olhos aquela quentura que sobe. Felizmente há todo aquele pedaço do mundo cheio de saúde em um planeta perdido de insânia... E isto ajuda-nos a crer na humanidade e... em nós mesmos... Ando aqui em nossa Bahia procurando absorver-me em fazenda, em bois, em negócios. Mas o anestésico é fraco. Vou indo, porém. A "obrigação" bem. Marta, uma graça. Ana Cristina, uma promessa de graça. Emilinha, mãe deliciosamente consumida e feliz." Era o retrato de um raro instante de ventura.
Nada havia, porém, a fazer senão adaptar-se à realidade. Talvez custoso, mas inevitável. E na medida em que o tempo passava, Anísio se sentia enleado pela maneira bem mais oriental dos baianos diante da vida. Por algum tempo fora a Bahia ponto de encontro de navios vindos de todos os continentes, e aí ancorados ou cremados durante meses. Criara-se o hábito de não haver pressa as coisas se resolviam tangidas pelo tempo. Curioso e importante é este depoimento de Anísio, em setembro de 1940:
"Vivo na Bahia uma vida tão baiana que, insensivelmente, me vou sentindo afastado do presente e do futuro e preso a não sei que encanto da inação e do passado. Porque a Bahia, como já Ihe tenho dito várias vezes, é uma terra que já chegou e que nada mais espera senão conversar e sorrir tolerante e displicentemente sobre a vida... Penso que guardadas as proporções, o ambiente em que se vive, na Bahia, tem algo de comum com o clima moral e mental da China, ou da Grécia ao tempo da ocupação romana... A ação e o trabalho, a luta, enfim, passou para o segundo plano, é qualquer cousa que se faz porque não se pode de todo deixar de fazer. O que importa, porém, o que dá prazer e acende nos olhos a alegria de viver não é o triunfo, nem o êxito mas a conversa fiada, o comentário ocioso e amável, o convívio humano
pelo convívio humano. Neste sentido, tenho que a Bahia é uma das terras mais civilizadas do mundo - tão civilizada que já não cogita de civilizar-se..." O torpor amortecia o ímpeto do homem de ação. Certamente, um contraste com o imaginado pelo missionário, que, enleado pelos encantos da "conversa fiada", confessava com humildade: "Para quem já trazia em si, como eu, um grande e decepcionante desconsolo pela ação, esse ambiente baiano tem o encanto e o poder repousante de um banho morno... Deixamo-nos quedar na paz e na tranqüilidade dessa remotíssima Bahia, como em um colo amigo, fechamos os olhos e nos pomos a dormir. Às vezes dormimos e sonhamos. Os temperamentos como o meu, porém, que são impermeáveis ao sonho, dormem apenas..." Para Anísio a época era mais de pesadelo do que de sonho. Também Fernando de Azevedo estava mergulhado em decepções: desejava mudar de alma. Era o impossível: "coelum non animun mutant...'', dizia ele a Anísio, para acrescentar: "O que desejaria é fugir de mim mesmo' esquecer-me, para reviver. Se pudéssemos sair de nós e voltar a nós, quando fosse agradável ou necessário!" E nesse oceano de pessimismo, ele deixava sair um grito de angústia: "É preciso aprender a morrer na cruz todos os dias." Não diferia muito o estado de espírito de ambos.
Os amigos, aliás, jamais se conformaram em vê-lo posto à margem inaproveitado pelo serviço público, ele que tanto devia contribuir para melhorar o País. Lobato, dos mais revoltados, dizia ao próprio Anísio: "O fato de Anísio Teixeira ter ficado anos no Brasil parado, afastado da ação pública, já forçado a empregar seu gênio numa função de comércio, coisa ao alcance de qualquer galego, foi o que mais me deu a medida do 'fracasso' que somos como povo e como País - espetáculo tão triste que me levou, na velhice, com todos os meus cabelos brancos, a mudar de terra, a fugir para não presenciar uma decomposição progressiva e irremissível."
Para o clan dos Teixeiras, o exílio fora fecundo, e mais dois filhos, Carlos e José Maurício, haviam chegado para a alegria do pai enternecido. Era o que ele chamava a minha tribo, quatro sólidos tupiniquins." Encantava-o acompanhar aquelas inteligências que desabrochavam curiosas para a vida, e ele espicaçava com os livros infantis de Lobato, as Caçadas de Pedrinho, as Reinações de Narizinho ou Emília no País da Gramática. E ele escrevia ao glorioso autor: "Éramos, pois, todos Lobato em casa. Nada mais líamos. O dia perdia-o eu nas amolações dos negócios. E à noite lia Lobato para a tribozinha apaixonada e sôfrega. Lia e relia, porque a minha leitura tem que ser 'diferente'. Como a de Dona Benta, com explicações, comentários e respostas às perguntas de Baby e à impaciência ansiosa de Marta, diante das questões um tanto 'emílicas' da primeira". Se não de sonho, estas horas seriam de esperança em meio às atribulações. Em breve, porém, o homem de ação retomaria a ferramenta do educador
Inesperadamente, em junho de 1946, a Roda da Fortuna deu uma volta de 180 graus. Entre as alegrias e as esperanças da paz criara-se a UNESCO (United Nations Educational & Cultural Organization), e, por sugestão de Paulo Carneiro, Delegado do Brasil no organismo internacional, Julian Huxley, seu Primeiro-Secretário Executivo, convocou Anísio para colaborar no setor educacional. A
notícia chegou-nos como uma bomba - de algum modo era a desforra. Para Anísio era quase inacreditável e ele escreveu a Lobato: "Depois de dez anos de enxotamento no Brasil, ver-me suspenso pelo Huxley e feito conselheiro de uma Universidade do mundo é francamente milagre de conto da carochinha." A alegria mostrava quanto a ferida fora funda.
Carlos Lacerda, então redator, no Correio da Manhã, da coluna Na Tribuna da Imprensa, não perdeu a oportunidade para revelar as mazelas do Estado Novo. "Os melhores homens deste País" escreveu "ao que parece, são aqui atirados pela janela com uma desenvoltura, uma inocência realmente espantosa. O mais recente caso, e dos mais dramáticos, é o de Anísio Teixeira. Quase um menino quando voltou ao Brasil, de volta das lições de John Dewey, o admirável filósofo da educação democrática, esse baianinho miúdo e franzino, recebeu o encargo de dirigir a instrução pública do Distrito Federal. Em meio às mais duras incompreensões, pôs de pé o Departamento de Educação que, depois, o Estado Novo levou anos a destruir metodicamente com sadismo e com fúria... Para não ser preso como comunista, o educador teve de voltar à sua terra natal, a Bahia, onde se refugiou no comércio como única atividade permitida. Pôs-se a exportar manganês o admirável ensaísta da Educação para a Democracia... O defenestrado Anísio Teixeira teria sido no entanto uma das vozes a serem ouvidas na reorganização do Brasil - se realmente o governo agora estivesse pensando em reorganizá-lo." E após esse registro dos fatos, Lacerda continuava:
"Quando foram banidas do vocabulário político as palavras 'cultura', 'progresso' e 'democracia', das quais tanto abusam comunistas e fascistas para melhor falsificar aquilo que elas realmente exprimem, foi banido também Anísio Teixeira o mestre de uma geração de mestres.
Ontem, durante a sessão da Assembléia, recebemos a notícia de que Anísio Teixeira foi convidado para Conselheiro de Educação da Organização Educacional e Científica da ONU, sediada em Londres, para onde deverá seguir, em começo de julho próximo, o mestre brasileiro. Eis no que dá o costume nacional da defenestração. O Brasil atirou pela janela mais esse excepcional homem de idéias e de ação. Ia passando um transeunte sôfrego à procura de guias, de organizadores, de mentores espirituais para uma época atribulada e confusa - e agarrou o brasileiro miúdo, franzino e admirável. Esse transeunte era o Mundo."
Anísio narrou a surpresa do destino: "... no dia 12 de junho, para ser exato, de volta a Nova York ao meu pequeno hotel na rua 46, encontro uma carta de quatro páginas do Julian Huxley, escrita à mão,
convidando-me para ser Conselheiro da Educação na Unesco. Soubera do meu endereço, no dia do seu regresso por avião a Londres, e ainda estivera no hotel duas horas, contando com o meu regresso para o almoço como não chegasse escreveu-me uma carta relatando como havia andado um mês à minha caça para me descobrir no dia do seu regresso a Londres. E assim me deparei com uma carta do Julian Huxley e um convite inacreditável do Destino para dar uma volta de 180 graus em minha vida."
As coisas não haviarn sido, porém, tão simples entre Anísio e o Mundo havia um mesquinho governo, que tentou evitar o convite. Conta-o o próprio Anísio em carta a Lobato, agora revelada por Cassiano Nunes: "Huxley, escolhido, comunicou ao Paulo Carneiro o seu desejo de escolher um brasileiro para o staff da Unesco. O Paulo deu-lhe o meu nome, creio contou cousas a meu respeito. O Huxley fixou-se em mim. No Brasil, o governo declarou desconhecer-me e indicou dois outros nomes. O Huxley resistiu e deixou o Brasil sem convidar ninguém, pois não me encontrara.'' Talvez inacreditável. Mas, Huxley, diria Anísio, era da Dinastia dos Huxley, dos Darwin, dos Einstein, e não se deixou vencer pela astúcia dos desafeiçoados ao convidado. Em junho acabou encontrando-o em Nova York, e logo Ihe mandou o convite. Nítida, minuciosa e afetuosa, a carta mostra o empenho com que requestava a colaboração, epílogo de insistente procura.
"Nova York, 12 de Junho, 1946
Prezado Sr. Teixeira,
Andei tentando entrar em contato consigo no mês passado, desde que chegara ao Rio e agora descobri que está aqui, mas no mesmo dia tive de voar de volta para a Inglaterra! (Espero que seja o Dr. Teixeira que eu estava procurando, pois parece não ser este um nome raro, e já me enganei uma vez em Nova York. Suponho que seja o Dr. Teixeira que estava no Ministério da Educação no Rio e que mais tarde se mudou para a Bahia.)
Atualmente sou Secretário Executivo da Comissão de Preparação da Unesco (Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas), e estou tentando organizar um Secretariado. Todo o mundo me garantiu que seria a melhor pessoa possível que poderíamos conseguir na América Latina para a Seção de Educação, e minha carta tem por finalidade oferecer-lhe o posto de Conselheiro em Educação. Isto significaria um salário de £ 1.500, isento de impostos britânicos e com um futuro auxílio-residência de £ 1,10 por dia (no caso de haver qualquer dificuldade em termos de salário, estou certo de
que pode-se fazer um acordo). O trabalho seria ajudar na Seção de Educação, na elaboração de um relatório que sirva de plano para a agenda da I Conferência da Unesco em novembro, em Paris. No momento, estamos instalados em Londres, mas nos mudaremos para Paris no final de setembro. O Dr. Kuo, chinês, chefia a Seção de Educação e temos também uma senhora mexicana, Dra. Elena Torres, na seção, assim como um dinamarquês e um assessor haitiano, além de um Consultor Britânico (Dr. Lauwerys); e provavelmente acrescentaremos ainda um francês.
Além disso, meu substituto, Dr. Wilson, foi Professor de Pedagogia em Harward e conhece a educação nos EUA. Se puder vir, esperamos que o faça o mais breve possível por volta de 1° de julho se puder.
Embora a nomeação seja válida, formalmente, para somente até o final do ano, qualquer membro da equipe da Comissão Preparatória terá sem dúvida a certeza virtual de uma nomeação permanente, se seu trabalho for satisfatório.
Como tudo o que a Unesco pode realizar é de tal importância, espero que se disponha a juntar-se a nós nessa tarefa.
Uma vez que estou de partida esta tarde, poderia entrar em contato com nosso Conselheiro Presidente junto à ONU, Monsieur Deschambeau (da Bélgica) no Hunter Collegenão tenho agora seu número de telefone, mas suponho que seja Melrose 5-4701, extensão 403 para discutir certos assuntos com ele, caso necessário? Se você voltar antes de 3:15, estarei em Parklane Winchester 24100 ext. 15D e depois em Laguardia até a hora da saída, às 6 h. Desculpe-rne por essa nota escrita às pressas. Atenciosamente, Julian Huxley."
Convocação tanto mais irrecusável quando vinha de um dos papas da cultura universal.
Anísio cuidou de arrumar os negócios e fazer as malas. Ele, que não sonhava, ia carregado de sonhos. Em pouco pausara no Hotel Magestic, Avenue Kliber, Paris. Estava no centro do mundo, que o recolhera quando atirado pela janela. De todos, o mais exultante seria Lobato, então em Buenos Aires. Ele a Anísio: ''Aqui me chegou a notícia da Meridional sobre o convite de Julian Huxley para que vás funcionar como matéria cinzenta num dos lobos cerebrais do mundo e exultei!... Agora me sinto contente, ao ver que Anísio 'foi chamado a servir', não à pátria chica, que não o quer, mas à humanidade. E radiante de alegria, aqui das margens do Prata eu te abraço radiante". Não apenas Lobato todos nós, amigos de Anísio, sentíamo-nos desagravados.
Anísio recordou essas horas de esperança: ''Voltava de novo, disse ele a Odorico Tavares, à atividade pública depois de sete anos de recolhimento na província. Este ano de 1946 constituiu, graças a isto, um rendez-vous com o mundo. Sob a liderança de Julian Huxley, a Organização Mundial para a Educação, a Ciência e a Cultura inicia
va os seus primeiros passos com ambição e desassombro, justificando a legenda com a qual Gide a imaginava inspirada. Gide tomara de Virgílio este verso, para indicar-lhe a rota e a responsabilidade: Cessi, et sublato montes genitores, petivi. (Encaminhei-me: e, tomando toda a carga do meu patrimônio, procurei alcançar as alturas.)''
Os sonhos eram grandiosos, e também efêmeros. Anísio imaginara a Unesco como o "supremo Ministério da inteligência e da cultura, com o perfeito entendimento entre os povos...'' Não demorou em se dissuadir: ''Depressa vimos, porém, que mais uma vez a vontade dos povos não se realizaria. A guerra fria, que se iniciava, logo progredia, e a Unesco, no fim do primeiro ano de trabalho, recolhia as asas que tentara estender, aprisionada em um orçamento menor do que o que iria gastar nesse mesmo ano, em pesquisas atômicas, a pequenina Suíça''. Desalentado, ele pensou em voltar ao Brasil, e deu conta desse propósito a Lobato, que o desaprovou inteiramente. Como abandonar o ''cérebro do mundo''? Para Lobato era incompreensível. Estava-se em janeiro de 1947 quando Anísio voltou a escrever a Lobato:
''Pouco antes de deixar Paris, recebi sua carta e posso Ihe dizer que você, mais uma vez, determinou a direção de minha vida. Estava em pleno labor elaborativo a respeito do meu trabalho na Unesco e, confesso inclinado a me encaramujar na Bahia cuidando da criação de quatro teixeirinhas. Sua carta sacudiu-me como uma rajada de vento e resolvi ficar''. Ao que acrescentava: ''Vou ficar mais algum tempo. Pensar é uma cousa, realizar um pensamento outra. Nada exige tanta paciência e tanta ciência do possível. Vou ver se não sou eu que estou errado com a minha impaciência wellsiana... O Huxley declarou-me que desejava muito conservar-me e sua carta acabou o trabalho. Deixo uma vida privada que começava a ser interessante e vou ser funcionário intelectual do que você chama o cérebro do mundo". Em seguida, dava impressões sobre a Unesco. "Lendo e relendo a sua carta, comparo-a às cartas de namorados sobre o casamento. A vida conjugal, entretanto, é tão diferente! Dá-se um pouco o mesmo com a Unesco. Amar a Unesco é uma cousa e casar com ela outra. Com sete meses de vida marital, andava triste e desconsolado". A reconciliação seria, porém, passageira.
Mal desembarcou o Queen Elizabeth, em Nova York, Anísio mudou de opinião. Comunicou a Lobato: "Em New York pus os pés em terra. E senti que eles não tinham a leveza que supusera em pleno mar cinco paralelepípedos os amarravam ao chão. A mulher e quatro filhos. E todas as decisões ruíram" . A Unesco perdera a partida.
Desiludido, ele voltara às atividades de exportador de manganês. Tinha em mãos uma fortuna, pois, descobertas as minas da Serra do Navio, delas obteria a concessão. De Nova York ele voou para o Amapá, local das jazidas, as maiores do mundo. A riqueza batia-lhe à porta. Contudo, outro era o seu destino. E ainda no Amapá chegou-
lhe o convite de Octávio Mangabeira, que assumia o Governo da Bahia para ser o seu Secretário de Educação. Devia, pois, escolher entre a tranqüilidade da riqueza e as conhecidas atribulações do serviço público, para ele tão ingrato. Falando de Lobato, quando ele morreu, diria pertencer à categoria dos homens caracterizados por serem ''o que são, involuntariamente, como se obedecessem a um fatalismo do destino, era o seu caso Anísio, para atender a um amigo, tudo abandonava, curvando-se à invencível vocação de servir. Ainda uma vez inconformado Lobato escreve ao amigo: ''Que pena! Entristeci-me melancólica e filosoficamente mas Anísio tem razão. Antes de reconstruir a educação do mundo é preciso ensinar a ler a Bahia, que é um pedaço do mundo.'' Vencido pelo sonho e pelas velhas ilusões, Anísio deixava a Unesco para retornar à Bahia o idealista era incorrigível.
Luiz Vianna Filho
Setembro de 1987