MONTEIRO LOBATO
A MORTE DE Monteiro Lobato põe-nos, de chôfre, diante do mistério da igualdade e desigualdades humanas. Iguais, morremos aos milhares, todos os dias, nesta melancólica e convulsa época coletivista, sem já provocarmos nem pesar nem pausa na marcha incoercível do imenso rebanho.
Mas, de repente, tomba o "excepcional", tomba um daqueles homens únicos que redimem e explicam a luta obscura da espécie pela perfeição, e estacamos, surpresos e feridos, como se, de repente, nos faltassem base e apoio para viver ...
Monteiro Lobato era no Brasil, um dêsses homens únicos, que a só presença enchia, a todos nós, de confôrto e razão de viver. Nunca a humanidade pôde dispensar os poetas e profetas. Desde que começou a luzir, em seu cérebro, a inteligência, passou, de fato, a viver muito mais dependente dêsses bardos do que dos seus chefes temporais ou dos seus heróis militares. Monteiro Lobato pertencia a essa rara família de profetas e poetas, que condensam, de súbito, para um momento e um povo, a sua própria essência espiritual.
Não pareça isto exagêro de minha emoção ou de minha saudade. A menor reflexão sôbre o fenômeno Lobato em nosso país confirma a minha tese de que perdemos, anteontem, a mais densa e mais vigorosa encarnação do espírito brasileiro, em nosso tempo.
Não se trata, com efeito, do desaparecimento de um escritor profissional, ou do que se chama tão equìvocamente um intelectual, ou um erudito, ou um sábio. Desapareceu, anteontem, a maior e mais alta parcela individual do espírito, no Brasil. O que caracteriza, acima de tudo, tais homens é que são êles o que são, involuntàriamente, como se obedecessem a um fatalismo do destino, a respeito de si mesmos e até contra si mesmos.
Lobato tudo desejou ser, no Brasil, desde fazendeiro até incorporador de sociedades anônimas; teve uma das vidas mais ativas e mais acidentadas de que se pode ter notícia; foi infeliz e insucedido na mor parte de sua trepidante trajetória pela existência; jamais fêz da literatura seu objetivo e termina a vida trágica e luminosa, deixando uma da maiores obras literárias de nossa história, amado e querido como jamais foi querido e amado um escritor brasileiro.
Todos os que tivemos a dita de ser seus amigos, lamentávamos a sua inconstância e mesmo infidelidade ao espírito literário e lutávamos para que volvesse à sua obra e a ela se devotasse. Nunca o quis. Sempre considerou essa obra subproduto. Esfôrço de compensação. Os livros lhe nasciam depois das decepções, para curar-se delas. Sempre me disse que gostaria de contar a história dos seus livros e, até, dos seus contos. Divertidíssima, dizia-me. Nenhum tinha razão em si mesmo. Aquela "Bucólica" extraordinária do Urupês, escrevera-a, como catarse, para se consolar da morte estúpida de uma bêsta de estimação. E assim eram todos os seus contos e assim foram todos os seus livros ...
O trabalho de arte lhe saía das mãos e do espírito, como uma travessura, como um brinquedo, em meio às lutas e canseiras de uma existência sonhadora e agitada. A arte não era o seu trabalho, mas o seu repouso. A literatura infantil foi tôda escrita como imenso divertimento e só no fim é que começou a surpreendê-lo e a absorvê-lo, como a sua obra maior.
Desta matéria é que se fazem os escritores que se tornam os profetas e os símbolos do seu povo. Não são homens que aprenderam uma arte e a praticam, mas artistas natos que surgem para ensinar e criar e o fazem, mesmo que o não queiram, como o bicho-da-sêda faz a sêda ...
Acompanhemos, com efeito, ràpidamente embora, a vida dêsse paulista de "quatrocentos anos", e que disto nunca se lembrou, e vejamos quanto essa vida reproduz a vida do Brasil, nesse mesmo período, as suas convulsões, as suas contradições, as suas frustrações, e as suas grandezas, para deixar-nos, depois, como simples conseqüência, como o casulo do bicho-da-sêda, a maior obra literária de nossa época, a mais aguda e extensa análise do nosso povo e de sua terra e a mais admirável e mais poética literatura infantil que jamais um povo pôde organizar para a sua infância.
Antes de 1914, data do início da Primeira Guerra Mundial, vemo-lo acadêmico de Direito, como qualquer brasileiro bem nascido da época, cheio de verve, de espírito, de "literatura" e de serenidade como o Brasil cândido e inocente do momento. Éramos, a êsse tempo, europeus vivendo no Brasil. Entra na magistratura, que exerce com ceticismo e amável indiferença. E, depois, aparece fazendeiro de café e começa, então, a sua descoberta do Brasil. Em contacto com a terra e a terra rica e próspera de S. Paulo, não lhe seduz continuar sòmente a prosperidade, mas tentar uma experiência. Colonizar o Brasil não com italianos, mas com brasileiros, Reponta-lhe a necessidade de redimir o brasileiro. Algo de falso havia naquela riqueza do café. E toca a trazer brasileiros para substituir os italianos, dando-lhes as mesmas condições feitas para o colono estrangeiro. O desastre completo traduz-se no Jeca Tatu, primeiro mergulho profundo na triste realidade nacional. Juntamente com o país, Lobato começa a viver o grande período de introspecção que iniciamos com essa "charge" genial e continuamos ainda hoje, buscando compreender e resolver o enigma brasileiro. Involuntàriamente, Lobato se faz o primeiro sociólogo brasileiro. E, já agora, tocado do demônio dêsse enigma, vende a fazenda e transporta-se à cidade. A literatura o leva para aí mas não é a literatura que o atrai. A literatura é o pretexto. O problema brasileiro comeca a brotar dentro dêle. Funda uma emprêsa tipográfica e uma editôra e, à falta de outra cousa, edita-se a si mesmo. Mas inconscientemente, o que o move é a industrialização nascente do Brasil e a sua necessidade de educação. Fracassa na primeira, mas o propósito educacional se afirma. E surgem as primeiras obras de literatura infantil. As suas vistas se lançam para as crianças. São elas que virão fazer o Brasil. Experimenta o parasitismo da nossa riqueza rural, depois, a falsidade da iniciação industrial e sai de tudo isto com vários livros e muita e imensa decepção. O Brasil passava também pelas mesmas experiências e pelas mesmas frustrações. Duas revoluções e a continuação da análise e da busca. Passam, pelos livros de Lobato, as mesmas incertezas e a mesma inquietação. As circunstâncias jogam-no para os Estados Unidos, onde se faz estudioso do problema econômico. Volta ao Brasil para a grande aventura do ferro, depois a do petróleo, a mesma aventura que também vivia o Brasil, bracejando com seus problemas básicos. Tôda essa agitação termina em grandes livros, em análises candentes da realidade nacional. Lobato faz-se a voz e a consciência das nossas maiores necessidades. Não é um literato, é um profeta a amar o Brasil como ninguém jamais o amou e a profligar-lhe os erros, os absurdos, os descaminhos, como jamais alguém os profligou. Termina êste homem ingênuo e imenso na prisão, por delito de veracidade, por delito de lucidez. As contradições brasileiras, as terríveis contradições brasileiras reproduzem-se em sua vida individual com uma simetria dolorosa e inesperada. Em meio a tudo isto, consolam-no as crianças. Já não escreve para os adultos senão panfletos. Guarda, para as crianças, o seu amor, a sua espantosa capacidade de candura e de infância. E tenta qualquer cousa como uma enciclopédia infantil. Faz-se o maior escritor de crianças do seu tempo e da sua língua. Transforma-se num mestre-escola genial, em livros milagres, revelando uma capacidade espantosa de ensino e de revolução didática.
A essa época, a literatura infantil constitui sua única obra literária. Para os adultos, a "charge", ou, a tradução: verbera ou ensina, porque as traduções são a segunda parte de sua imensa obra educacional e didática. Traduz gigantescamente livros e livros e livros. Romance, filosofia, ciência, tudo que possa dar ao brasileiro, em português, o que sente que precisa ler e saber para sair dos seus impasses. E faz tudo isto, em cima da perna, com velocidade inacreditável, sem se cansar, como o seu recreio, porque o trabalho é sempre outro, é a atividade prática, é a emprêsa, é o comércio ou a indústria.
No último período, porém, da grande frustração nacional que foi a revolução de 30, nem sua literatura infantil conseguiu vencer-lhe a amargura cívica. Publica, então, seu maior livro, um dos clássicos sem dúvida da literatura brasileira e quiçá continental, o menos intencional dos livros, a sua correspondência de 40 anos com Godofredo Rangel, o mais íntimo dos seus amigos. Como os demais e ainda mais flagrantemente, marca êste livro a espontaneidade e gratuidade de tôda verdadeira obra de arte. Publicá-lo, porém, já era um pouco fazer seu testamento. Lobato, enfarado, preparava-se para morrer. Antes, porém, sarcástico e brutal, parte para a Argentina, declarando intolerável viver em sua terra. Mesmo então, repete o estado de consciência do seu país. Também o Brasil vivia seu período máximo de enfaro com o desgovêrno nacional. Pouco depois, com um estremeço de ombros, joga afinal fora a ditadura enxovalhante que o amesquinhava e desperta em imensa e promissora campanha cívica. Os ares lavados da Pátria trazem de nôvo Lobato ao país, cansado mas feliz ...
Vem para a colheita, para a consagração sem limites da obra que era a seara imensa de uma consciência e uma lide incessante pela sua terra e sua gente ...
A obra literária, involuntária e acidental, estende-se em área de quarenta volumes. As crianças de ontem são os adultos de hoje e todos se formaram lendo-lhe os livros. A fama e a glória que nunca buscou, não o deixam mais. Trabalha intensamente em suas obras completas. Mergulha em uma imensa serenidade. Transforma-se num dos mais doces homens do seu tempo. Escreve como escrevia Tolstoi, a milhares e milhares de brasileiros. Recebe a todos e a todos dá, como um presente, um pouco de sua bravura, de sua originalidade, do seu espírito. É a inteligência independente e livre do Brasil.
Nos últimos meses, já quase sem fôrças, ferido de morte, recordo-me de vê-lo, no canto que lhe preparou a livraria Brasiliense, sentado em sua cadeira, fraco mas siderantemente lúcido, a receber a todos que passavam e lhe iam falar. Nunca tive tão material a visão da posteridade a falar a um escritor. O grande inquieto encontrara a sua paz. Todo o seu espírito de luta se fêz espírito de compreensão e de ternura. Amava os jovens e as crianças e cria no Brasil de amanhã. Os demais escritores brasileiros serão admirados mas só êste foi amado e querido, como são amados e queridos os grandes mestres do povo, os que possuindo sua candura e sua bravura se identificam com êle e escrevem, sem querer, as grandes obras de arte que não morrem e que não os deixam morrer. Lobato continha e continuará a viver nos corações das crianças brasileiras, que beijam seus retratos antes de dormir, como se beijassem a um amigo ou um pai, e no espírito de todos os brasileiros que se inquietam com o nosso destino e o sonham maior e melhor.
ANÍSlO S. TEIXEIRA