A MORTE DE ANÍSIO TEIXEIRA

Repercute em todo o Brasil - Novos Depoimentos

Toda a imprensa brasileira registrou, com pesar e com respeito, a morte do grande educador. Novos depoimentos em torno da sua obra e da sua personalidade. Fatos novos a respeito de sua atuação no cenário educacional foram revelados. Afinal, Anísio Teixeira era nome conhecido em todas as escolas brasileiras, desde o ambiente das grandes Universidades até nas modestas salas de aula das longínquas escolas primárias do nosso imenso Brasil.

As Homenagens do Congresso

No Senado da República o registro coube ao senador pela Guanabara Nelson Carneiro, outro ilustre baiano que o Brasil inteiro conhece.

No seu discurso, para homenagear grandes figuras de homens públicos nascidos na Bahia, recentemente falecidos, o senador Nelson Carneiro, não obstante representante da Guanabara, falou também pela Bahia e pelo Brasil.

Além da figura de Anísio Teixeira, na mesma homenagem, foram lembradas as de Clementino Fraga - a quem Anísio substituiria na Academia Brasileira de Letras; Nestor Duarte "Um Homem de Idéias", sobre quem escrevera Anísio o seu último artigo; João Mendes da Costa Filho, vice-presidente do Superior Tribunal Militar e destacada figura na Câmara dos Deputados; Senador Dilton Costa, baiano que representava o próspero Estado de Sergipe; e o jovem deputado João Batista Alves de Macedo.

Referindo-se a Anísio Teixeira, fez um retrospecto da sua vida "desde os dias brilhantes da juventude, no Colégio Antônio Vieira, na Bahia" até a sua morte "quando se apagava uma vida luminosa de saber, de amor à juventude, de bravura cívica, de devoção ao Brasil. A vida de um mestre de mestres, de um devassador de roteiros, de um plasmador de grandezas, de um criador de futuros", de um homem que tivera "a coragem de não ter medo das idéias novas, de olhar sem prevenção o mundo todo, o que amamos e o que não queremos, mas que existe; a coragem de perscrutar o futuro nos roteiros do presente".

Na Assembléia da Bahia

A Assembléia Legislativa da Bahia, na sessão realizada no dia 14 de abril de 1971, homenageou a memória do Prof. Anísio Teixeira.

Dois oradores se fizeram ouvir: pela Aliança Renovadora Nacional, o deputado Manoelito Teixeira, por indicação do líder de sua bancada, deputado Afrísio Vieira Lima, e o deputado Newton Macedo Campos, pelo Movimento Democrático Brasileiro, indicado pelo líder de sua bancada, deputado Clodoaldo Campos.

O Representante da ARENA

Inicialmente deu conhecimento à Casa de uma Moção de autoria do deputado Prof. Áureo de Oliveira Filho, subscrita por outros deputados. Em seguida, pronunciou o seu discurso, do qual transcrevemos o trecho que se segue:

"Sr. Presidente, Srs. Deputados:

Muitas têm sido as vezes em que temos nós assomado a esta tribuna para homenagear os nossos grandes mortos, cumprindo não apenas um dever cristão, mas também um dever cívico ao proclamarmos, para que consignado fique nos Anais desta Casa e conheçam os pósteros, o rastro de luz deixado pelos nossos maiores.

A quem hoje tributamos o preito do nosso reconhecimento que terá de ser de toda a Bahia, haja vista que este plenário, divergente tantas vezes no interpretar, hoje unânime e reverente, porta-voz que é do sentimento do povo, inclina-se diante do túmulo de Anísio Teixeira, para agradecer-lhe tudo que em nome da cultura baiana fez pela educação no Brasil.

O ano passado, no dia 15 de julho, desta tribuna, na qualidade de representante de uma parcela do povo, levantava a minha voz para homenagear um dos mais dignos e ilustres filhos da Bahia, que acabara de completar 70 anos de idade - o saudoso educador brasileiro Prof. Anísio Teixeira.

Fiz registrar nos Anais desta Casa o fato de ter assistido à festa comemorativa dos seus 70 anos, promovida pelo Colégio Estadual Presidente Costa e Silva e pela V SELIBA (Semana do Livro Baiano), ocasião em que ouvimos uma brilhante conferência sobre o saudoso Anísio Teixeira, proferida pelo jovem educador Prof. Hermano Gouveia Neto, que tantos serviços também tem prestado à educação da Bahia. Era a merecida homenagem da sua terra natal que lhe reconhecia e proclamava os méritos, pois apesar dos seus 70 anos ainda prestava relevantes serviços à educação brasileira.

Sr. Presidente, Srs. Deputados, até agora somente tenho citado realizações do Prof. Anísio Teixeira. É mais fácil citá-las do que falar das suas qualidades, porque em verdade foi um homem raro. Dizer que Anísio era um gênio, que foi um sábio, que era um puro, que era um homem bom, simples, modesto e afetuoso, é dizer o óbvio de Anísio, pois ilustres homens de sua geração e do seu convívio estão, com muito mais autoridade, a proclamar os seus méritos pessoais. Temos visto, através da nossa imprensa, a publicação dos mais diversos artigos através das páginas da Tribuna da Bahia, onde destacamos os depoimentos dos professores, Jayme Junqueira Ayres e Godofredo Filho, além do imortal Jorge Amado, ou através de A Tarde, publicando artigo magnífico do imortal Pedro Calmon. Muitos têm escrito e muitos outros escreverão sobre Anísio Teixeira, através dos jornais da sua terra natal.

É a hora de toda a Bahia homenagear a memória de um dos seus mais ilustres filhos e zelar o seu nome. Há poucos dias a imprensa divulgava palavras do atual Secretário de Educação do nosso Estado, Prof. Rômulo Galvão, assegurando que o Governo ajudará a preservar a Escola-Parque, grande realização do Prof. Anísio Teixeira - escola pioneira na "educação para a vida" e que merecerá um tratamento à altura do nome de seu idealizador.

É justo, pois, que desta tribuna, em nome do povo da Bahia, estejamos a render a nossa homenagem à memória do grande conterrâneo e ao fazê-lo queremos lembrar aos jovens educadores da Bahia que é a sua obra e a sua vida uma fonte de perene inspiração para os que desejam servir bem e servir melhor à educação."

Após o pronunciamento do representante da Aliança Renovadora Nacional a palavra foi concedida ao representante do Movimento Democrático Brasileiro, deputado Newton Macedo Campos. Do seu discurso transcrevemos o seguinte trecho:

"Os grandes homens constroem o seu próprio pedestal e o futuro encarrega-se da estátua - palavras de Balzac na morte de Vítor Hugo, palavras que poderemos dizer, também, a propósito de Anísio Teixeira. O nobre deputado Manoelito Teixeira muito disse, muito mais teríamos a dizer, porém, porque pouco seria para a incomensurável grandeza do grande baiano que estamos aqui a homenagear, tragicamente desaparecido, quando, ironicamente, caminhava para a imortalidade acadêmica. . . "

Mas, Srs. Deputados, trarei também para V. Exas. depoimentos de seus contemporâneos, grandes contemporâneos. De Afrânio Peixoto: "Anísio Spínola Teixeira, flor na ponta de galho de uma raça nobre e inteligente do meu sertão, honra à Bahia. O Brasil nos inveja por ele. Está certo: é a velha história dos irmãos de José." Mas, Srs. Deputados, um dos seus mais ilustres contemporâneos no Colégio Antônio Vieira, o Ministro Hermes Lima, faz esta declaração sobre a infância do grande Anísio Teixeira naquele educandário baiano:

"Todos nós, seus colegas e contemporâneos, guardamos dele impressão toda especial, inesquecível. Pequeno de estatura, magro, irriquieto e olhos muito vivos, o portador de comunicante jovialidade estava ali, o jovem que viria destacar-se em sua geração como o mais extraordinário valor humano que ela teria revelado."

Durante o seu discurso o deputado Newton Macedo Campos foi aparteado pelo líder de sua bancada, deputado Clodoaldo Campos, tendo este declarado: "Se a incompreensão de alguns não soube avaliar a grandeza da obra de Anísio Teixeira, a Bahia, seu Estado natal, através do seu povo, não poderia faltar, neste momento em que todos nós sentimos a falta desse grande brasileiro, cujo nome já é universal. Daí ser justa a homenagem que esta casa lhe presta, através das palavras de V. Exa. e seu colega, porque esta é a homenagem do próprio povo baiano."

Ao final do seu discurso o deputado Newton Macedo Campos acrescenta novos depoimentos sobre Anísio. Por isso vale a pena ser transcrito para conhecimento dos leitores:

"Mas, Sr. Presidente e Srs. Deputados, antes de concluir, voltarei a outro depoimento de Monteiro Lobato, porque é importantíssimo o seu primeiro depoimento em 1929, e o seu depoimento em 1948, pouco antes de morrer. Verão V. Exas. que Monteiro Lobato não só ratifica, como amplia o seu pensamento, o seu juízo sobre o grande baiano. Escreve Lobato pouco antes de morrer, em 1948, ao nosso conterrâneo João Palma Neto:

"Ótimo que estivesse com Anísio. Vá visitá-lo em meu nome. Leve-lhe o meu abraço. Eu tenho por Anísio uma adoração absoluta. É-me uma honra viver no mesmo tempo que ele. Você não o conhece como eu. Anísio é um diamante imenso sob forma humana. Moralmente e sentimentalmente é a criatura mais perfeita que encontrei na vida. E intelectualmente é a única criatura diante da qual me sinto chato como percevejo - e com que prazer me achato quando é um Anísio que me achata!"

Esse, Sr. Presidente, é o depoimento do grande escritor José Bento de Monteiro Lobato, que, todos sabem, nunca foi homem de elogios fáceis...

... Mas, Sr. Presidente, poucos minutos antes de morrer, Anísio Teixeira encontrara-se com o Acadêmico Odílio Costa Filho e, vê V. Exa. o que é a fatalidade! Na sua caminhada para a Academia Brasileira de Letras ainda declarou ao ilustre jornalista e escritor que estava sentindo pela primeira vez o leito da bondade humana. Dirigiu-se então para a casa do Acadêmico Aurélio Buarque de Holanda e aí colheu-o a fatalidade."

Senhores Deputados, esta Casa não poderia deixar de prestar sua homenagem, registrando a grande perda para a Bahia, para o Brasil e para a Cultura."

O Representante da Terra Natal

Na homenagem da Assembléia Legislativa da Bahia não faltou a homenagem de Caetité, a cidade que lhe serviu de berço, ao raiar do século XX. Foi prestada através do deputado Vilobaldo Freitas, filho da mesma cidade.

Em sua comovida oração, declarou:

"Como caetiteense, como baiano, como alguém que sentiu de perto todo o desenrolar da vida de Anísio, não poderia deixar de trazer a minha voz e fazê-la juntar-se às que aqui se levantaram para medir-lhe - se é possível medi-la - a grandeza da estrutura moral, a expressão da intelectualidade que aqui se levantara não tanto para julgar, porque julgar seria talvez temerário e perigoso, mas para louvar essa extraordinária figura humana que foi o caetiteense Anísio Teixeira.

Para entender e bem compreender o que foi a vida de Anísio Teixeira, é mister conhecer-se o meio familiar em que plantaram raízes as suas idéias - e eu posso testemunhar como humilde caetiteense e seu admirador - que foi o seu lar um ninho de virtudes cristãs, como também uma escola de energia e de tenacidade.

Anísio Teixeira formou o seu espírito na mocidade, na maturidade e até mesmo na velhice, extraordinário humanista que foi, porque se abeberou na virtude cristã do seu lar, onde ainda hoje, tantas décadas decorridas, ainda pontifica a bondade cristalina, a virtude sem jaça de sua irmã, D. Celsina Teixeira, encanecida, e cuja bondade é tão autêntica, é tão voraz que se despojou da sua riqueza material, de suas jóias e seus bens, para exclusivamente praticar a caridade, numa sociedade, numa comunidade pobre como é Caetité, para esta bondade, este espírito cristão que foi o da família. Foi, sem dúvida, o solo donde o espírito de Anísio pôde haurir a sua energia imensa e a sua bondade, e foi também no seu lar que ele aprendeu a ter a energia e o espírito de luta.

Seu velho pai, Deocleciano Teixeira, um dos maiores líderes políticos da Bahia, foi durante toda uma existência um homem de uma só peça, inteiriço na rijeza das suas decisões, na integridade do seu caráter, como também na coragem com que, ao fim de sua vida, no estoicismo, pôde enfrentar e vencer as adversidades políticas."

O deputado Vilobaldo Freitas, também professor e antigo servidor da Secretaria de Educação do Estado, finalizou o seu discurso pronunciando as seguintes palavras:

"É pois natural que pranteie o desaparecimento de tão invulgar cidadão, de tão destacada inteligência e, sobretudo, de tão ímpar figura humana, porque em Anísio Teixeira se fundiam, numa síntese feliz, o talento, a cultura, a bondade, a formação cristã, sendo ele assim a realização, em pessoa e em atos, de sentimentos que ele vivera na infância, no seu lar abanqueado pelas virtudes cristãs.

Quando dou este meu testemunho, quando junto às palavras que aqui se ouviram as minhas, sem nenhuma dúvida algo repassadas de saudades e de pesar, é porque o conheci de perto e porque dele recebi atenção como modesto funcionário do setor educacional. Quando as pronuncio, eu me sinto feliz como alguém que luta na seara educativa, como baiano e, sobretudo, como alguém que participou do prazer e da honra de ter o mesmo torrão natal, a nossa querida Cidade de Caetité."

A Presença de Estudantes e Professores

No dia em que se realizou a sessão da Assembléia Legislativa para a homenagem póstuma a Anísio Teixeira foi grande o número de estudantes e professores presentes para ouvirem os anunciados pronunciamentos. Estive presente, ao lado dos alunos do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva e representando a V SELIBA (Semana do Livro Baiano). Para nós, que lideramos as homenagens a Anísio, no ano anterior, quando completava os seus setenta anos, foi uma tarde de grande emoção. Era o povo da Bahia, através dos seus representantes, a homenagear a memória de um dos seus mais ilustres e dignos filhos.