As novas metodologias de
Educação e
os ensinamentos de Anísio Teixeira
Luiz Felippe Perret
Serpa
Prof. Adjunto UFBA-FACED
Introdução
A vasta obra de Anísio
Teixeira1 e sua dedicação à educação, desde diretor da Instrução
Pública, em 1924, do governo Góes Calmon, na Bahia, até sua morte, em 1971,
produziram muitos ensinamentos para a educação brasileira e, em particular,
sobre os métodos de ensino. Para abordar a questão dos métodos de ensino na
educação, vamos considerar somente dois textos:
a)"O Manifesto dos pioneiros da
educação nova", publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v.
65, maio/agosto, 1984, p. 407-425, Brasília, na comemoração do 40° aniversário
da Revista.
b)"Mestres de Amanhã",
publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 40, n° 92, set./dez,
1963, p. 10-19, Rio de Janeiro, conferência proferida na sessão do Conselho
Internacional de Educação para o Ensino, Hotel Glória, Rio de Janeiro, agosto,
1963.
A partir de cada um desses
textos, destacaremos e comentaremos as concepções de Anísio Teixeira que
expressam a importância de novos métodos de ensino e a necessidade de uma nova
formação do professor.
Os métodos de ensino na
Escola Nova
No Manifesto dos Pioneiros
de 1932, Anísio Teixeira e outros educadores pleiteavam a reconstrução
educacional no Brasil, dirigindo-se ao povo e ao governo.
Detemo-nos em relação ao
"processo educativo", item do documento.
Em primeiro lugar, o papel
da ciência na educação nova é fundamental e norteador da mudança:
O
desenvolvimento das ciências lançou as bases das doutrinas da nova educação,
ajustando à finalidade fundamental e aos ideais que ela deve perseguir os
processos apropriados para realizá-los.
A concepção da educação
nova, diferente da educação tradicional, centra no educando o processo
pedagógico, pleiteando que é na atividade da criança que se forma a dimensão
educativa:
A
escola, vista desse ângulo novo que nós dá o conceito
funcional da educação, deve oferecer à criança um meio vivo e natural,
"favorável ao intercâmbio de reações e experiências", em que ela,
vivendo a sua vida própria, generosa e bela de criança, seja levada "ao
trabalho e à ação por meios naturais que a vida suscita quando o trabalho e a
ação convém aos seus interesses e às suas necessidades".
Mais adiante, o documento
marca as diretrizes dos novos métodos a serem desenvolvidos nos processos
educativos:
…
à fonte de inspiração das atividades escolares (criança e seus interesses),
quebra-se a ordem que apresentavam os programas tradicionais, do ponto de vista
da lógica formal dos adultos, para os pôr de acordo
com a "lógica psicológica", isto é, com a lógica que se baseia na
natureza e no funcionamento do espírito infantil.
Finalmente, ressalta que a
escola nova deve estar centrada no trabalho, enquanto atividade humana
(práxis):
A
escola nova deve ser reorganizada de maneira que o trabalho seja seu elemento
formador, favorecendo a expansão das energias criadoras do educando, procurando
estimular-lhe o próprio esforço como o elemento mais eficiente em sua educação
e preparando-o, com o trabalho em grupos e todas as atividades pedagógicas e
sociais, para fazê-lo penetrar na corrente do progresso material e espiritual
da sociedade de que proveio e em que vai viver e lutar.
É evidente que o próprio
Manifesto aponta as características que o novo professor deve satisfazer para a
nova escola. Em face da dimensão contemporânea da conferência proferida por
Anísio Teixeira na sessão do Conselho Internacional de Educação para o ensino,
realizada em agosto de 1963, no Rio de Janeiro, preferimos usar esse texto para
discutir a questão do novo professor.
A formação do professor
Já em 1963, Anísio
demonstra preocupação com os novos tempos, que vem reforçar a necessidade de
mudanças radicais na formação do professor, devida, em parte, à escola nova e,
também, às novas tecnologias de comunicação.
É categórico:
É
o mestre da escola elementar e da escola secundária que está em crise e se vê
mais profundamente atingido, e compelido a mudar pelas condições dos tempos
presentes.
Ao falar da sociedade
contemporânea, Anísio Teixeira antecipa toda a nossa angústia atual:
Entrava
ela (a sociedade contemporânea) em fase de desenvolvimento científico até certo
ponto inesperado, levando-a na indústria à automação, na vida econômica a um
grau espantoso de opulência e na vida política e social ao desenvolvimento dos
meios de comunicação de tal extensão e vigor que os órgãos de informação e de
recreação se viram subitamente com o poder de condicionar mentalmente o
indivíduo, transformando-o em joguete das forças de propaganda e algo de
passivo no campo da recreação e do prazer.
As conseqüências para o
processo educativo são múltiplas. Anísio destaca uma delas:
Não
somente a comunicação se faz assim universal no espaço, como também, com os
nossos recursos técnicos, se estendem através do tempo, podendo o homem numa
simples sessão de cinema, visualizar as civilizações ao longo da história, como
sucede nos grandes espetáculos modernos em que a
cultura antiga é apresentada de forma nem sequer sonhada pelos mais ambiciosos
historiadores do passado.
Afirma, então, que a educação do presente e do futuro ainda estão para ser
concebidas e, consequentemente, também o futuro mestre.
É no reflexo sobre o
magistério que Anísio Teixeira analisa os processos contemporâneos:
Com
a expansão dos meios de comunicação, o mestre perdeu esse antigo poder (o
transmissor da cultura), passando a ser apenas um contribuinte para a formação
do aluno, que recebe, em relativa desordem, por esses novos meios de
comunicação, imprensa, rádio e televisão, massa incrível de informações e
sugestões provenientes de uma civilização agitada por extrema difusão cultural
e um acelerado estado de mudança.
Ao descrever uma
experiência de ensino universitário em Keele, Inglaterra, afirma que este
programa deverá ser a educação comum do homem moderno e a tarefa do professor
secundário será imensa, pois grande deverá ser seu preparo para "conduzir
o jovem nessa tentativa de dar à sua cultura básica a largueza, a segurança e a
perspectiva de uma visão global do esforço do homem sobre a terra". Ao
afirmar que o homem vai cada vez mais depender de sua cultura formal e
consciente, de seu conhecimento intelectual, simbólico e indireto, para se
conduzir na vida em sociedade, Anísio Teixeira apresenta como razão básica o
que vivenciamos na sociedade atual:
Os
meios modernos de comunicação fizeram de nosso planeta um pequenino planeta e
dos seus habitantes, vizinhos uns dos outros. Por outro lado, as forças do
desenvolvimento também nos aproximaram e criaram problemas comuns para o homem
contemporâneo. Tudo está a indicar que não estamos longe de formas
internacionais de governo.
A partir dessa concepção,
indaga o que será a escola de amanhã e seus mestres, para encaminhar uma
resposta revolucionária:
Se
a biblioteca, de certo modo, já fizera do mestre um condutor dos estudos do
aluno e não propriamente o transmissor da cultura, os novos recursos
tecnológicos e os meios audiovisuais irão transformar o mestre no estimulador e
assessor do estudante, cuja atividade de aprendizagem deve guiar, orientando-o
em meio às dificuldades de aquisição das estruturas e modos de pensar
fundamentais da cultura contemporânea de base científica em seus aspectos
físicos e humanos.
Preocupado com a educação
do homem comum, Anísio Teixeira destaca uma situação que vivemos hoje muito
intensamente:
O
homem comum está caminhando para ser o escravo como o entendia Aristóteles, ou
seja, o homem que está na sociedade, mas não é da sociedade. O progresso
científico está na tela e conduz o homem, nenhum de nós sabe para onde.
Encaminha seu pensamento
para a formação do mestre de amanhã:
…
formar um mestre, esse mestre de amanhã, que fosse um pouco do que já são hoje
certos jornalistas de revistas e páginas científicas, um pouco dos chamados, por
vezes injustamente, popularizadores da ciência, um pouco dos cientistas que
chegaram a escrever de modo geral e humano sobre ciência, um pouco dos autores
de enciclopédias e livros de referência e, ao mesmo tempo, mais do que tudo
isto. O mestre de amanhã teria, com efeito, de ser treinado para ensinar
basicamente as disciplinas do pensamento científico, ou seja, a disciplina do
pensamento matemático, a do pensamento experimental, a do pensamento biológico
e a do pensamento das ciências sociais, e com fundamento nessa instrumentação
da inteligência contribuir para que o homem ordinário se faça um aprendiz com o
desejo de continuar sempre aprendendo…
Para esse mestre,
corresponderá uma escola de amanhã que "lembrará muito mais um
laboratório, uma oficina, uma estação de televisão do que a escola de ontem e
ainda de hoje. Entre as coisas mais antigas, lembrará muito mais uma biblioteca
e um museu do que o tradicional edifício de salas de aula."
Finaliza ainda reiterando
as características do mestre de amanhã:
Reunindo,
assim, funções de preceptor e de sacerdote e profundamente integrado na cultura
científica, o mestre do futuro será o sal da terra, capaz de ensinar-nos, a
despeito de complexidade moderna, a arte da vida pessoal em uma sociedade
extremamente impessoal.
Assim, os ensinamentos de
Anísio Teixeira encaminham-se para uma escola nova, com métodos ativos, baseada
na atividade científica, onde os mestres são muitos mais orientadores e
preceptores do que transmissores do conhecimento.
Referência bibliográfica
1. Biblioteca Virtual
Anísio Teixeira, PROSSIGA/CNPq