PRONUNCIAMENTO - DEP. WALDIR PIRES
SESSÃO SOLENE EM HOMENAGEM A ANÍSIO TEIXEIRA
DATA: 13/06/2000
Meu caro Presidente, um dos autores da iniciativa desta homenagem a Anísio Teixeira, o bravo Deputado Haroldo Lima; meus cumprimentos também aos Deputados que se associaram no requerimento desta homenagem, Deputada Esther Grossi e Deputado Paes Landim; Anna Christina Teixeira, nossa querida Babi, e Dr. Carlos Antônio Teixeira, meu caro amigo, filhos de Anísio Teixeira; senhores representantes do Ministério da Educação que aqui se encontram; senhoras e senhores deputados; creio ser muito significativo que, no dia em que vamos homenagear Anísio Teixeira nesta Casa, uma Casa essencial da democracia, que tem o dever de lutar pela democracia, por circunstâncias especiais, ela se tenha enchido aqui de trabalhadores dos Correios do Brasil, para, ainda por uma dessas coincidências muito felizes, ouvirem sobre a vida e a obra de uma das figuras mais extraordinárias da nossa Nação.
No que diz respeito a mim, que sou baiano, trata-se de uma das personalidades da minha terra que terá dado a contribuição mais eminente e, ao mesmo tempo, mais lúcida e democrática ao esforço no sentido de que o Brasil possa tornar-se um país de todos nós, de toda a população.
Anísio Teixeira foi o que o Deputado Haroldo Lima lembrou, nas palavras de Hermes Lima - outro grande brasileiro -, o estadista da educação, porque, para ele, só com a educação se produziria um Estado democrático, uma sociedade democrática. Em torno dos anos 60, ele fazia uma indagação, quase diria uma exortação, dizendo que este País ainda não descobrira que a grande e verdadeira revolução a fazer-se no Brasil é a da democracia, porque só a democracia exige, e impõe a transformação do ser humano e da solidariedade na sociedade.
Anísio Teixeira pensou sempre a educação, diria assim, com uma visão republicana, profunda, porque de verdade a grande revolução é a revolução da sociedade, para constituir-se decente, uma sociedade para todos.
A Deputada Esther Grossi nos lembrou um outro Pensamento de Anísio Teixeira: Fazer na edução, aquela máquina de produzir a democracia, que é a escola pública. Só a escola pública, na educação pode produzir a democracia. A educação para todos, que não discrimine, não segregue, que abranja todas as famílias de todas as áreas da sociedade.
Essa foi a luta permanente de Anísio Teixeira e por isso os percalços, os obstáculos e as diversas e sucessivas injustiças que praticaram contra a sua pessoa e contra a sua vida.
Filho de uma família tradicional importante, Anísio Teixeira, que vem de uma pequena cidade admirável no sertão da Bahia, Caetité, em 1931, ainda jovem, torna-se, já, a grande figura democrática da educação, da transformação social pela educação. Ele, a rigor, não era um marxista. Absorveu do seu mestre, na formação acadêmica, John Dewey, grande filósofo, da educação, o princípio básico do liberalismo igualitário que confronta com o do liberalismo das elites.
Ouço, com prazer, o aparte do nobre Deputado Vivaldo Barbosa.
O Sr. Vivaldo Barbosa - Eu, desejoso de me associar a esta homenagem a Anísio Teixeira, essa grande figura da nacionalidade brasileira, sinto-me muito feliz em aparteá-lo, na observação que fez ao trazer o educador Anísio Teixeira como um estadista, um homem de visão nacional, que trabalhou para tornar realidade o sonho de um Brasil soberano e integrado pela educação, pelo conhecimento e pela cultura todos os brasileiros na formação da nacionalidade brasileira. Como V. Exa. Mencionou anteriormente, contamos aqui com a presença, nesta sessão, que traz um significado muito simbólico à figura de Anísio Teixeira, dos nossos trabalhadores dos Correios e Telégrafos, instituição que hoje luta pela sua sobrevivência. Os Correios e Telégrafos são a marca da nacionalidade em qualquer país do mundo, a marca do Estado nacional brasileiro, que Anísio Teixeira, na sua concepção de estadista, tanto trabalhou para ver forjado como símbolo da soberania nacional. Aproveito este aparte para saudar os companheiros trabalhadores que lutam contra a privatização dos Correios e Telégrafos e transmitir a esses trabalhadores que nós, integrantes da Frente Parlamentar em Defesa do Brasil - da qual V. Exa. é um dos mais elevados dirigentes e o Secretário-Geral é o Deputado Haroldo Lima e eu que a presido neste exercício -, nesta Casa do Congresso Nacional, estamos lutando decididamente, e, agora mais ainda, com essa lembrança do Deputado Waldir Pires, hoje com a inspiração de Anísio Teixeira, com sua visão de Brasil, da nacionalidade brasileira, contra a privatização dos Correios e Telégrafos. Nossa saudação a todos os trabalhadores.
O Sr. Waldir Pires - A visão e a confiança que Anísio Teixeira tinha era a de que este País haveria de ser uma grande nação das crianças alfabetizadas, das cidadãs e dos cidadãos educadamente preparados para a construção de uma sociedade progressista e fraterna.
Um dia a minha terra me elegeu Governador da Bahia. E, nas primeiras 48 horas de empossado, tive a iniciativa, como preocupação básica, na idéia de atitude simbólica, de fazer uma visita à Escola Parque, em Salvador, no bairro da Liberdade, pensada e implantada por Anísio Teixeira, no Governo do eminente brasileiro Otávio Mangabeira. Paes Landim lembrava, há pouco, essa Escola Parque "Centro Educacional Carneiro Ribeiro".
A Escola Parque foi a tentativa e o projeto de Anísio de romper o dualismo existente, desde, sempre, na deformação intelectual das elites brasileiras, na concepção de separação, de divisão entre a educação para o povo e para as elites, que era, de um lado, o regime da escola, da universidade, destinadas simplesmente a pensar, a refletir, reproduzindo a velha escolástica medieval e, de outro lado, o regime dos liceus, dos ateliês, das oficinas, que preparariam o povo somente para o trabalho manual. Anísio Teixeira, na concepção da Escola Parque, tenta essa revolução, na antevisão de conhecer para onde o mundo estava caminhando, com o acelerado progresso das ciências e técnicas contemporâneas. Era preciso vencer a idéia de um conhecimento puramente racional e porque era preciso juntar o conhecimento racional com a prática, a que o povo já tinha acesso. Juntar o trabalho empírico, à observação racional dos que faziam as oficinas. Esse avanço de metodologia, já se estava processando no mundo e o Brasil teria de suprimir e encerrar a antiga divisão elitista, aristocratizada, insuportável. Construir a educação de um governo de concepção democrática, e para uma sociedade comprometida com os valores republicanos e democráticos.
Fiz essa visita à Escola Parque, para reintroduzir o pensamento de Anísio, com a alegria de ter a companhia e a presença de V. Exa. Deputado Haroldo Lima. Restauramos o que estava, então, arruinado: Instauramos de novo, a escola esplêndida, num bairro popular de Salvador, destinada a abrigar sete mil estudantes. Reorganizamos e demos-lhe o destino que lea deveria ter. Infelizmente, depois, tudo retornou ao regime do abandono e da displicência.
Mas esta era nossa tarefa. O mundo realizou, a partir do conhecimento racional, vitorioso há séculos, a sua junção ao conhecimento prático. E realizou o salto gigantesco da ciência e técnica experimentais dos nossos dias, para produzir esta revolução que está aí, no mundo de hoje. Mas em benefício de quê? E de quem? Em benefício dos homens, das mulheres, das crianças, enfim, em benefício da humanidade, é o desafio revolucionário contemporâneo.
Hoje, Anísio Teixeira está mais vivo do que nunca, na sua concepção de que é preciso vencer as desigualdades e as iniqüidades dos sistemas dominantes através da democracia. Porque assistimos a ciência e a tecnologia, em plena e vitoriosa expansão, continuando a produzir desigualdades brutais e pervarsas; ao invés de igualdade, estão produzindo exclusão e desigualdades intoleráveis.
Ninguém, nenhum pensamento neste País é mais vivo, presente, admirável e leal ao povo brasileiro e à educação brasileira do que o do nosso grande filósofo da educação Anísio Teixeira, para o resgate da Nação, e da vida do nosso povo.
Muito obrigado.