Anísio Teixeira

" Mestre não é aquele que sabe,
mas quem, de repente, aprende".

Guimarães Rosa.

Através da memória os homens se recordam. Lembram de lugares, de momentos significativos, de pessoas queridas, marcantes, extraordinárias. Dessa forma, ao cultuar os antepassados, as sociedades se preservam, apesar da velocidade que caracteriza a dinâmica social do nosso tempo.

Recordar Anísio Teixeira é, portanto, celebrar a vida, é preservar a nossa memória como povo e como país, é praticar justiça. Anísio constitui uma daquelas pessoas extraordinárias, no sentido assinalado por Hobsbawm, qual seja, a de um missionário entregue, de forma inteiramente desinteressada, à concretização de um ideal de elevado conteúdo ético com relação à emancipação dos homens.

Em uma sociedade de agudas desigualdades sociais, como a brasileira, pontilhada por uma cultura política excludente, opressiva, autoritária, o ideal de Anísio Teixeira estava ancorado na reconstrução social do país através da educação. Uma reconstrução orientada à democracia e à eqüidade social. Por esta causa lutou a vida inteira: a educação do povo, a escola pública. Por ela também pagou caro.

Há cem anos (12-07-1900), portanto, nascia esse sertanejo agreste da Chapada Diamantina. "baiano da Bahia do bode", como diria Darcy Ribeiro. É assim que Darcy descreve Anísio: "Baixinho, seco de carnes, atento, olhos acesos, vivíssimos, mas alegre e sorridente. Não tinha nada da tristeza que tantos intelectuais atam na cara assim que começam a manifestar-se". Assinala, ainda, Darcy que encontrou um intelectual "mais cheio de dúvidas que de certezas, de perguntas que de respostas. Anísio me ensinou a duvidar e a pensar".

Desde os anos 30 até a sua morte em 1971, com exceção dos silêncios impostos pela ditadura de Vargas ( 1937-45) e pelo Regime Militar ( 1964 – 85), Anísio foi uma voz altiva em favor da escola pública, democrática e laica. No cumprimento da sua missão nos legou uma obra escrita e prática, configurando um autêntico organizador da cultura na acepção de Gramsci.

Nessa perspectiva, Anísio Teixeira implementou reformas educacionais enquanto dirigente da educação no Rio de Janeiro e na Bahia. Criou escolas, como a Escola Parque de Salvador, cujo exemplo correu o mundo sob o patrocínio da UNESCO. Semeou universidades como a do Distrito Federal nos anos 30 e a Universidade de Brasília nos anos 60. Foi Secretário da Educação na Bahia e no Rio de Janeiro, assessor da UNESCO, diretor da CAPES e do INEP, Presidente da SBPC, reitor da UnB, professor a vida inteira.

Em todas essas funções, dois aspectos fundamentais faziam parte do horizonte das suas preocupações: a educação popular e a formação de intelectuais.

Anísio Teixeira foi um militante pela causa que abraçou. Foi um dos Pioneiros da Educação nos anos 30, um participante ativo do movimento em defesa da escola pública nos anos 50, cujo desaguadoro foi a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961. O seu ideário pode ser sintetizado como fez Darcy Ribeiro, em artigo escrito em nome de Anísio, publicado no jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro:

"Sou contra:
a educação elitista e antipopular;
o analfabetismo da maioria dos brasileiros;
a evasão e a repetência na escola;
a falta de consciência dessa calamidade;
o caráter enciclopédico e ostentatório do nosso ensino;
o funil que só deixa cinco por mil dos alunos chegarem a universidade;
o esvaziamento do ensino superior;
a multiplicação de escolas privadas e ruins.

Sou a favor:
de uma escola primária popular e séria;
da educação média formadora do povo brasileiro;
do uso dos recursos públicos nas escolas públicas;
da educação para o desenvolvimento econômico e social;
da educação fundada na consciência lúcida".

A matriz teórica das idéias de Anísio Teixeira era John Dewey, um pensador de viés liberal. Nos anos 50 esteve próximo do nacional–desenvolvimentismo. No entanto, a sua posição intransigente em defesa da escola pública, democrática e laica, fizeram com que duas ditaduras, a do Estado Novo e a do Regime Militar, setores privatistas e, sobretudo, o catolicismo regressivo e conservador, o rotulassem de comunista e subversivo.

Assim, durante o Estado Novo, foi afastado da vida pública e, por quase dez anos, permaneceu no interior da Bahia dedicado à exploração e exportação de manganês, calcário e cimento. Nos anos 50, a publicação de "Educação progressiva" e de "Educação não é privilégio", provocaram, como diz Darcy Ribeiro, "toneladas de livros e de artigos de contestação em revistas e editoras católicas". Em 1964, com o golpe militar, Anísio foi afastado da reitoria da UnB, teve o seu mandato concluído no CFE e permaneceu em silêncio até a sua trágica morte em março de 1971.

Em suas "Confissões", Darcy Ribeiro escreve que tem dois alter egos. "Um, meu santo-herói, Rondon, com quem convivi e trabalhei por tanto tempo, aprendendo a ser gente. Outro, meu santo-sábio, Anísio". Jorge Amado, por sua vez, ao dedicar, talvez o mais belo dos seus livros, "Capitães da Areia", a Anísio Teixeira, diz que assim faz por ser ele "amigo das crianças".

Por tudo isto, Anísio. Por sua imensa humanidade, por sua universalidade, pelo seu compromisso de homem de pensamento e de ação com um ideal nobre, nós lhe homenageamos. A UFRN lhe homenageia e, como na canção de Vinícius e Baden Powell, pede-lhe a benção.

A benção, mestre Anísio, que o seu exemplo ilumine os homens de boa vontade na construção do caminho da paz, da eqüidade e da justiça.

Prof. José Willington Germano
Pró-Reitor de Extensão Universitária da UFRN
wgermano@digi.com.br
Natal, 12 de junho de 2000
Ciclo de Palestras Sobre Anísio Teixeira - UFRN